Fórum Cético
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: Energia a partir das ondas do mar  ( 3090 )
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Alexandra
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« : 20/06/07 - 20:36:26 »

 

Energia a partir das ondas do mar será gerada por bóias submarinas

Catherine Brahic
NewScientist
19/06/2007

Energia das ondas do mar gerada por bóias submarinasElas se parecem um pouco com minas submarinas, mas têm um objetivo bem menos sinistro - os primeiros desses equipamentos geradores de energia a partir das ondas do mar deverá emergir das profundezas do oceano na costa do Reino Unido em 2008.

Energia das ondas

A empresa AWS Ocean Energy desenvolveu a bóia submarina que retira energia das ondas a 50 metros abaixo da superfície. Segundo a empresa, como o equipamento é inteiramente subaquático, ele não sofre danos causados pelas tempestades como acontece com outros equipamentos que geram energia a partir das ondas, além de não interferir com a navegação.

As primeiras cinco bóias de teste serão ancoradas no fundo do mar no próximo ano, na costa da Escócia. A energia é gerada pela alteração na pressão que as ondas causam ao fazer subir e descer a coluna de água no interior das bóias.

Bóias submarinas

As bóias são ocas e cheias de um gás de alta compressão, que permite que a metade superior da bóia se mova para cima e para baixo. Quando uma onda passa sobre ela, na superfície, a água adicional armazenada no topo da bóia aumenta a pressão da água e a metade superior da bóia é pressionada para baixo.

Quando a onda se vai, a coluna de água é menor, baixando a pressão e fazendo com que a metade superior suba. É esse balanço de sobe-desce que movimenta o gerador no interior da bóia.

Segunda a empresa, a energia elétrica para abastecer uma cidade de 55.000 habitantes precisará de meio quilômetro quadrado de área do fundo do mar, coberta por 100 bóias submarinas.

Somos todos generais lutando em uma guerra perdida.
Alexandra
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« #1 : 20/06/07 - 20:36:50 »


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« #2 : 20/06/07 - 20:37:29 »

  Idéia revolucionária ou apenas lixo aquático que irá prejudicar a flora e fauna marinha?

Somos todos generais lutando em uma guerra perdida.
Malamen
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Eu comi o Espírito Santo.


« #3 : 21/06/07 - 10:07:19 »

Portugal já usa disso desde o ano passado. Apenas o tipo de tecnologia é diferente, eu acho. 

Portugal terá 1ª plataforma mundial de energia a partir das ondas

A Póvoa de Varzim vai receber o primeiro sistema internacional de produção de energia renovável a partir das ondas. A plataforma faz parte de um mega-projecto que deverá animar o mercado das energias renováveis em Portugal.

Num futuro próximo, a energia das ondas poderá representar a maior fonte de energia renovável da Terra. Não será de estranhar que a União Europeia exija que, até 2010, 22 por cento do consumo energético da Comunidade seja proveniente de fontes de energia renováveis, como o sol, o vento e as ondas.
O mais recente desafio tecnológico no que à produção de electricidade diz respeito coloca-se ao nível do aproveitamento da força do mar.

Portugal vai ser o primeiro país a nível mundial a implementar uma plataforma comercial de aproveitamento das ondas do mar para gerar energia. Para além do projecto na Ilha do Pico, também a Póvoa de Varzim contará com um mega-empreendimento resultante da parceria firmada entre a empresa escocesa Norsk Hydro e a Enersis, do grupo Semapa, uma das principais produtoras energéticas no segmento das mini-hídricas.

O complexo inclui a construção em linha de tubos cilíndricos, que deverão fornecer electricidade a 1.500 casas a partir de 2006. Segundo noticia a "New Scientist", a chamada Ocean Power Delivery (OPD) Pelamis P-750 será construída a cerca de 3 quilómetros a norte da costa da Póvoa de Varzim. Portugal deverá ter mais duas instalações de energia a partir das ondas do mar (uma possivelmente em Aveiro), com capacidade para gerar 2.25 megawatts.

A OPD da Póvoa é uma unidade metálica, composta por três geradores de energia cilíndricos semi-submersos. A energia produzida por estes geradores será, posteriormente, canalizada para cabos existentes no mar, que a "reencaminham" para a central energética.

A parceria entre a Enersis e a Norsk Hydro pode ainda resultar na construção de mais 30 máquinas geradoras de energia a partir de ondas, capazes de fornecer 20 megawatts antes mesmo do próximo ano - isto se a plataforma da Póvoa de Varzim apresentar níveis satisfatórios de exigência.
«Se tudo correr como previsto, vão ser implementadas futuras unidades em toda a costa [portuguesa], que deverão produzir milhares de megawatts» de energia a partir das ondas do mar, explicou à New Scientist, fonte da Norsk Hydro.
Richard Yemm, administrador-gerente da OPD, salientou que, com este novo empreendimento comercial de energia renovável, o nosso país deverá «dar um passo decisivo no desenvolvimento do seu mercado [energético], que pode vir a render mil milhões de euros nos próximos 10 anos» .

De recordar que, antes da instalação da central no norte de Portugal, foi construído um protótipo similar, nas ilhas Orkney, na costa norte da Escócia. Estão previstas futuras instalações do mesmo calibre no Reino Unido.

A título de curiosidade, o sistema de produção de energia recorrendo às ondas foi inventado por um português, Virgílio Preto, tendo sido primariamente utilizado para funcionar em molhes portuários.
« : 21/06/07 - 10:11:32 Malamen »

Se algum dia sentires um vazio dentro de ti, vai comer que é fome.
Ema
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Sim, sou cética!


« #4 : 21/06/07 - 10:11:54 »

  Sinceramente estou por fora do assunto. Mas parece interessante principalmente se não prejudicar mais a natureza.
Vou procurar saber mais do assunto para depois opinar. 

Ema
"Mas tudo veio a ser; não existem fatos eternos: assim como não existem verdades absolutas."  Nietzsche
Malamen
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Eu comi o Espírito Santo.


« #5 : 21/06/07 - 10:22:28 »

Entrevista: Prof. António Falcão*
   
*Professor e Investigador do IST

A energia das ondas é ainda uma utopia?
Foi já provada a viabilidade técnica de produzir energia eléctrica a partir da ondas com protótipos de dimensão industrial. Falta provar a viabilidade económica. A situação da energia das ondas pode ser comparada à da energia eólica há uns vinte anos.

Comercialmente está-se próximo de uma solução ou será que os protótipos existentes não passam mesmo de protótipos, sendo a sua utilização comercial, algo ainda muito distante?
Os custos com o desenvolvimento, construção, instalação e operação dum protótipo na prática não permitem que ele produza energia eléctrica a preços competitivos com as tecnologias mais convencionais. Nem é normalmente essa a finalidade dos protótipos. Têm sido feitas análises detalhadas dos pontos de vista técnico e económico a vários dispositivos (isso tem estado a ser feito, em 2004, no Reino Unido, por entidades independentes, com apoio estatal) que indicam potencial, nalguns casos, para, a médio prazo (alguns anos), se atingirem custos de produção comparáveis aos da tecnologia eólica.

Sendo o potencial energético das ondas enorme, porque é que as tecnologias existentes estão muito mais atrasadas do que as tecnologias do solar ou do eólico?
Resposta: É uma tecnologia mais recente. Há problemas técnicos, no desenvolvimento da energia das ondas, que são específicos e levantam sérias dificuldades. No caso mais interessante dos sistemas offshore, há que referir a agressividade do meio, no que respeita à instalação no local, o acesso para manutenção, e a simples sobrevivência dos dispositivos em situações de muito forte agitação marítima. Há ainda a referir o custo do transporte da energia para terra.

Em termos nacionais, como é que estamos em termos de investigação e desenvolvimento?
Resposta: Dominamos relativamente bem a tecnologia dos sistemas baseados na coluna de água oscilante (com turbina de ar) instalados junto à costa. Isto resulta de mais de vinte anos de I&D e à experiência com a central do Pico, e permite-nos projectar e construir, de modo do quase autónomo, centrais deste tipo, como se espera que venha a suceder com a central a instalar na cabeça do novo quebra-mar da Foz do Douro. Estamos a procurar dominar melhor as tecnologias (mais recentes) dos sistemas offshore, em ligação com parceiros de outros países. Globalmente, Portugal está no pequeno grupo dos países da frente quanto à tecnologia da energia das ondas.
Apesar do interesse crescente de algumas empresas portuguesas (veja-se a constituição em 2003 do Centro de Energia das Ondas), penso que há ainda uma barreira a vencer para que a actividade de I&D (essencialmente no IST e INETI) se traduza num maior envolvimento tecnológico e industrial por parte das empresas (que não seja a simples instalação e exploração de equipamentos).

A central das ondas no Pico é um projecto com possibilidade de concretização a nível comercial ou é apenas mais uma iteração no caminho para uma solução final?
Resposta: Não há a intenção de explorar comercialmente a central do Pico, nem foi com essa finalidade que a Comissão Europeia financiou os projectos que permitiram a sua construção. A central do Pico é uma importante infraestrutura de I&D, que tem sido e será de grande utilidade para o desenvolvimento deste tipo de tecnologia.

O impacte ambiental de alguns projectos poderá inviabilizar uma maior implementação da energia das ondas em Portugal?
Resposta: É bem conhecido que os constrangimentos relacionados com o ambiente têm dificultado, atrasado (e por vezes quase inviabilizado, caso das mini-hídricas) a implementação de energias renováveis. Isto provavelmente virá a suceder com a energia das ondas (houve dificuldades com os dois protótipos instalados em Portugal: a central do Pico, e o dispositivo AWS a norte do Porto). No caso dos sistemas de energias das ondas, devido à sua novidade, os organismos oficiais por vezes têm tido (e provavelmente terão) dificuldade quanto à maneira de abordar o impacto ambiental (isto tem sucedido também noutros países). No entanto, penso que, a médio prazo, as barreiras do impacto ambiental não serão maiores do que para a energia eólica.

Qual é o papel do IST, na investigação a este nível em Portugal?
Em Portugal, a I&D em energia das ondas teve início (por volta de 1977) no IST, e é aí que se tem realizado na sua maior parte. É de referir que o INETI tem tido também um papel importante desde 1983, com relevo para os estudos sobre a avaliação e caracterização do recurso energético das ondas. O IST e o INETI têm trabalho praticamente em conjunto nos últimos vinte anos.

Nas nossas universidades temos competências nesta área? Existem doutoramentos e mestrados nesta área?
No que respeita a universidades portuguesas, a quase totalidade da competência reside no IST. Foram aqui feitos oito a dez doutoramentos nesta área, além de várias teses de mestrado, e muitos trabalhos finais de curso.

Qual o país líder na investigação destas tecnologias, hoje em dia?

Penso que é o Reino Unido. A seguir vem um grupo de países, que inclui o Japão, Portugal, a Irlanda, a Noruega (actualmente em declínio nesta área), a China, a Índia.

A nível pessoal qual é a leitura que faz da utilização das energias renováveis em Portugal?
Há a percepção a nível governamental da importância do desenvolvimento das energias renováveis, e foram assumidos compromissos internacionais (por exemplo, os 39% de energia eléctrica de origem renovável em 2010). Mas nem sempre isto tem sido acompanhado da vontade política para remover os obstáculos (muito dos quais residem na máquina estatal) a este desenvolvimento. Penso que deveria haver maior preocupação no desenvolvimento de tecnologia portuguesa e sua incorporação nos equipamentos instalados. A questão da (falta de) tecnologia nacional é patente na actual situação da energia eólica em Portugal, em que têm vindo a ser feitos grandes investimentos por parte de empresas, com reduzida incorporação de tecnologia nacional. É muito desejável que isso se não venha a repetir em relação à energia das ondas, num país como Portugal com condições naturais excepcionalmente favoráveis à utilização deste tipo de energia.

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« #6 : 21/06/07 - 10:26:46 »

Este artigo é muito bom... apesar de ser um pouco longo, vale a pena ler. Tira muitas dúvidas.

Dossier: Energia dos Oceanos
   
As várias energias do oceano

Têm sido associadas aos oceanos diversas formas de energias potencialmente utilizáveis. Não serão aqui considerados os recursos energéticos abaixo do fundo (combustíveis fósseis offshore) ou acima da água (energia eólica offshore).

- Energia das marés: Tecnologia convencional, associada aos aproveitamentos hidroeléctricos de baixa queda e à construção de protecções costeiras e portuárias. A inexistência de condições naturais favoráveis (amplitudes de marés superiores a cerca de 5 metros) torna esta tecnologia pouco interessante em Portugal.

- Diferencial térmico (Ocean Thermal Energy Conversion ou OTEC): Potencialmente interessante em regiões costeiras com águas superficiais relativamente quentes (em média superiores a 25-28°). De interesse praticamente nulo em Portugal.

- Gradiente salino: Tecnologia em fase inicial de desenvolvimento, potencialmente importante se for bem sucedida. Desconhece-se qualquer actividade de I&D em Portugal. Pode justificar-se o acompanhamento do seu desenvolvimento.

- Correntes marítimas. Essencialmente as que são devidas à acção das marés, e atingem velocidades relativamente elevadas (até cerca de 2 m/s em média) em zonas confinadas (em grande parte dos casos estreitos formados por ilhas). Tem vindo a despertar interesse crescente na Europa (protótipos financiados pela Comissão Europeia), em especial no Reino Unido e Itália. A tecnologia tem semelhanças com a das turbinas eólicas. Em Portugal, o recurso potencialmente utilizável é relativamente pequeno: apenas ocorrem velocidades minimamente interessantes em estuários, onde o aproveitamento desta energia pode ser ambientalmente sensível. Parece justificar-se fazer um estudo exploratório.

- Energia das ondas: A tecnologia (de energia dos oceanos) em que na última década mais se tem investido em termos de I&D, em especial na Europa e alguns outros países. As regiões costeiras portuguesas estão entre as que têm melhores condições naturais a nível europeu e mesmo mundial. Portugal conta-se entre os países pioneiros em I,D&D. Dois dos poucos protótipos de dimensão industrial estão em Portugal: um em fase inicial de operação (ilha do Pico) e outro em fase final de construção (Viana do Castelo). Genericamente, a tecnologia pode considerar-se em fase pré-comercial.
O presente documento incide essencialmente sobre o aproveitamento da energia das ondas.

A tecnologia

A situação actual caracteriza-se por uma substancial variedade de dispositivos e métodos de extracção de energia das ondas, o que indica haver ainda um espaço relativamente amplo para desenvolvimento. Não se atingiu a situação de convergência para uma tecnologia dominante que caracteriza outras formas de energia mais convencionais (caso das turbinas de eixo horizontal para energia eólica). É possível que se venha a convergir para um pequeno número de soluções tecnológicas distintas, adequadas a situações diferentes (à semelhança dos vários tipos de turbinas hidráulicas apropriadas conforme a altura de queda).
Têm sido propostos diversos critérios para classificar os sistemas de extracção de energia das ondas. Por simplicidade consideram-se apenas aqui dois grupos:

- Sistemas na costa (ou próximos da costa). Estão normalmente localizados em águas pouco profundas (8-20 m), apoiados directamente na costa, ou próximos dela (possivelmente associados a obras de protecção costeira ou molhes portuários). São por vezes considerados de primeira geração, por serem praticamente os únicos que atingiram a fase de protótipo. O sistema de coluna de água oscilante é o tipo mais bem sucedido. A tecnologia envolvida é relativamente convencional. A peça de equipamento mais específica é uma turbina de ar que acciona um gerador eléctrico. A central da ilha do Pico é deste tipo, tal como a igualmente recente central da ilha de Islay (Escócia). Os problemas de transporte de energia para terra e de acesso para manutenção são de relativamente fácil resolução. Em contrapartida, a localização depende dum conjunto de factores geomorfológicos favoráveis na vizinhança imediata da costa, e os bons locais para construção não abundam.

Sistemas em águas profundas (offshore) (normalmente em profundidades de 25-50 m), por vezes designados de segunda geração. Têm sido estudados dispositivos muito variados, sem que pareça ter surgido um tipo que domine os restantes como o mais vantajoso e promissor. Em geral o órgão principal é um corpo oscilante flutuante ou, mais raramente, totalmente submerso. O sistema de extracção de energia pode ainda utilizar a turbina de ar, ou equipamentos mais sofisticados (sistemas óleo-hidráulicos, motores eléctricos lineares, etc.). O sistema AWS, com tecnologia essencialmente holandesa, é um dos raros que atingiram a fase de construção de protótipo. Os sistemas offshore estão menos dependentes das condições de costa, e (em longas séries ao longo da costa) são os mais adequados para o aproveitamento da energia das ondas em grande escala. As dificuldades associadas à sua maior complexidade, transporte de energia para terra, amarração ao fundo e acesso para manutenção têm impedido que o seu grau de desenvolvimento atingisse o da coluna de água oscilante.
Uma boa eficiência de extracção de energia está associada condições de ressonância com as ondas, o que tem implicações sobre as dimensões máximas dos sistemas. Daqui resulta na prática que os sistemas (tal como na energia eólica) deverão ser modulares, com potências por unidade que não excedendo alguns megawatts, o que aponta para o fabrico em série.
Qualquer que seja a tecnologia utilizada, a variabilidade da potência produzida está dependente da variabilidade do próprio recurso energético (sazonal, e com o estado de mar), à semelhança do que sucede com a energia eólica. As flutuações associadas à escala de tempo do período da onda (cerca de 10 segundos) podem ser mais ou menos bem filtradas, conforme o sistema e a sua capacidade de armazenamento de energia (por exemplo num volante de inércia).
O impacto ambiental é variável conforme o tipo de sistema e, especialmente, a sua localização. Para os sistemas na costa o impacto é essencialmente visual. O principal impacto dos sistemas offshore está associado a interferências com a navegação e pesca. Nas explorações offshore em grande escala, é de prever alteração (embora provavelmente não muito significativa) do regime de agitação marítima que atinge a costa, com a consequente modificação do transporte de sedimentos. O impacto na vida marinha é provavelmente pouco significativo. Os sistemas de coluna de água oscilante, e outros utilizando turbina de ar, produzem ruído, que no entanto pode ser atenuado (se necessário) recorrendo a técnicas convencionais. Dum modo geral, a utilização da energia das ondas é uma tecnologia relativamente benigna do ponto de vista ambiental.

Comparação com outras tecnologias energéticas

A conversão de energia a partir das ondas apresenta claras semelhanças com a eólica. Dado que as ondas são produzidas pela acção do vento, os dois recursos apresentam idêntica irregularidade e variação sazonal. Em ambos os casos extrai-se energia dum meio fluido em movimento e de extensão praticamente ilimitada.
A natureza ondulatório do mar (em comparação com o simples movimento de velocidade mais ou menos constante do vento) está na origem da maior complexidade de concepção de sistemas de conversão. Em compensação o recurso energético das ondas apresenta maior concentração espacial (numa camada de algumas dezenas de metros abaixo da superfície) do que a energia eólica. Em ambos os casos, os sistemas de aproveitamento são modulares, com potências instaladas por unidade previsivelmente inferiores à dezena de megawatts.
A maior complexidade dos sistemas de conversão e a maior agressividade do meio explicam o atraso da tecnologia das ondas em relação à eólica. Por outro lado, enquanto que no vento se convergiu para uma tecnologia bem definida (turbina de eixo horizontal), nas ondas a tecnologia tem-se dispersado por diversas concepções, o que também traduz uma realidade física mais variada (sistemas costeiros e offshore).


A situação internacional

Na Europa, tem havido I,D&D no Reino Unido, Irlanda, Dinamarca, Holanda, Noruega, Suécia e (em menor grau) em França (além de Portugal). O recurso das ondas é particularmente favorável na Irlanda e Reino Unido (Escócia). Foi recentemente anunciada (Julho de 2001) pelo Governo (regional) Escocês a criação dum centro de testes de tecnologias marítimas (ondas e correntes) na costa da ilha Orkney. No Reino Unido foi recentemente construída (pela empresa Wavegen) e está em operação uma central de coluna de água oscilante de 500 kW (ilha de Islay), e estão em desenvolvimento (pelas empresas Ocean Power Delivery e Wavegen, com financiamento estatal), dois protótipos offshore. Um consórcio holandês (AWS) desenvolveu um sistema offshore, estando previsto que um protótipo de 2 MW seja instalado em breve ao largo da costa portuguesa.
Fora da Europa, tem havido actividade em vários países, com relevo para o Japão, Índia, China, Canadá e Austrália. Foram construídos protótipos com potências entre 60 e 150 kW no Japão, Índia e China. Recentemente (Agosto de 2001), e a título de demonstração e transferência de tecnologia, a British Columbia Hydro (Canadá) lançou um concurso internacional para o projecto e construção de duas centrais com um total de 4 MW na ilha de Vancouver. Na Austrália foi anunciada a construção (na costa sul) duma central de coluna de água oscilante pela empresa Energetec.
No âmbito do programa JOULE da Comissão Europeia foi criada uma European Wave Energy Network (2000-2003) com participação de 8 países europeus. Em Outubro de 2001 foi assinado, no âmbito da International Energy Agency, um Implementing Agreement of Ocean Energy (de que Portugal é o país coordenador).

A situação em Portugal

As zonas costeiras portuguesas (em especial a costa ocidental do continente e as ilhas dos Açores) têm condições naturais entre as mais favoráveis em qualquer parte do mundo para o aproveitamento da energia das ondas: recurso abundante (cerca de 25-30 kW/m média anual), plataforma continental estreita (inexistente nos Açores) (ou seja águas profundas na proximidade da costa), consumo e rede eléctrica concentrados junto à costa do continente. A energia que chega à costa ocidental (500 km) é de cerca de 120 TWh/ano (em águas profundas). A conversão de apenas 1% desta energia em energia útil (substancialmente aquém do que é tecnicamente viável) produziria 1,2 TWh/ano, o que (para um factor de carga de 0,25) corresponderia a uma potência instalada de 550 MW. A contribuição dominante seria naturalmente de sistemas offshore.
Em termos de I&D, Portugal é um dos países pioneiros (actividade desde a década de setenta) e com maior impacto (por exemplo em termos número de publicações e de participação e coordenação de projectos europeus). Dos três grandes projectos europeus actuais com construção de protótipos, liderou um (ilha Pico) e participou nos outros dois (LIMPET, ilha de Islay, Escócia, e AWS, Viana do Castelo). Portugal liderou a elaboração do Atlas Europeu de Energia das Ondas, referente ao recurso em águas profundas (offshore), estando em fase de finalização o Atlas Nacional de Ondas que descreve o recurso junto à costa do continente.
A actividade e capacidade de I&D e a competência específica nesta área estão essencialmente concentrados no Instituto Superior Técnico e no INETI. O projecto do Pico permitiu às empresas nele participantes adquirir experiência neste domínio: EDP, EDA, EFACEC, Profabril.
Para além destas instituições, e numa perspectiva mais lata, existe substancial capacidade técnica em Portugal na área do mar, nomeadamente engenharia costeira, portuária e naval. A engenharia offshore é uma área de menor capacidade nacional (em comparação com alguns países do norte da Europa).
É de notar que se localizam em Portugal dois dos três protótipos recentemente construídos na Europa.

Aspectos económicos

A única concretização portuguesa (ilha do Pico) em geração de energia eléctrica a partir das ondas não deve ser tomada directamente, em termos de custos, como ilustrativa da capacidade de produzir energia a preços competitivos (foi declaradamente um projecto de I&D). Veio porém a servir de base a um estudo de natureza económica efectuado no IST (financiados pela FCT), que aponta as vantagens em associar dispositivos do tipo de coluna de água oscilante à construção de infraestruturas de protecção portuária (com a decorrente partilha dos custos da estrutura).
Conhecem-se estudos independentes recentes efectuados para o Governo Britânico, em que as projecções indicam haver diversos dispositivos com potencial (após algum desenvolvimento adicional) para produzir energia eléctrica a preços unitários comparáveis aos dos geradores eólicos. Naturalmente a constituição de empresas privadas para o desenvolvimento e comercialização da energia das ondas (de que são exemplo, na Europa, a AWS na Holanda, e a Wavegen no Reino Unido) assenta nessa expectativa.

As barreiras ao desenvolvimento

Algumas são genéricas, outras são específicas do contexto português.
- A passagem da fase de ensaios em laboratório para a demonstração com protótipo em mar real é fortemente dispendiosa, requer uma longa preparação e envolve riscos de vária ordem.
- O desenvolvimento dum sistema do tipo em questão, passando pelo projecto construção e operação de protótipo, até ao limiar da comercialização, requer a participação e coordenação duma equipa multidisciplinar, envolvendo empresas e instituições de I&D. Existe pouca experiência e tradição de empreendimentos deste tipo em Portugal.
- A escassa experiência portuguesa em tecnologia offshore pode implicar uma forte dependência de tecnologia estrangeira no desenvolvimento de sistemas offshore de segunda geração.

Cont...

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« #7 : 21/06/07 - 10:27:19 »

Continuação:

As oportunidades

Esta tecnologia energética encontra-se num estado crucial de desenvolvimento. Empresas em diversos países têm investido nesta área na perspectiva da comercialização dentro de alguns anos. A I,D&D ao longo de duas décadas, e a experiência adquirida com o projecto e construção da central do Pico, colocam Portugal numa boa posição para participar efectivamente na fase seguinte de desenvolvimento.
A recente regulamentação portuguesa sobre os preços de compra da energia eléctrica produzida a partir das ondas (e de outras renováveis menos convencionais), no âmbito do Programa E4, Eficiência Energética e Energias Endógenas, constitui um incentivo a aproveitar.
Também a recente criação da Medida de Apoio à Dinamização do Sistema Tecnológico (POE) constitui uma oportunidade para a criação dum Centro de Energia das Ondas que possa promover, enquadrar e dinamizar actividades visando o desenvolvimento destes sistemas.
Para além do aproveitamento dum recurso energético endógeno e da criação de emprego, existem oportunidades para exportação de tecnologia e equipamentos (são de referir contactos recentes em Portugal por empresas do Canadá e Brasil).


O futuro: iniciativas e perspectivas

É previsível que, no panorama internacional, continue a haver competição, em termos de desenvolvimento, entre sistemas distintos (costeiros e em águas profundas, com diversos tipos de equipamentos mecânicos e eléctricos) e que tal se mantenha pelo menos no médio prazo. Existem aliás paralelos em áreas com maior maturidade tecnológica, de que são exemplos a utilização, em concorrência, de motores alternativos e de turbinas na propulsão naval e aérea, ou dos diversos tipos de turbinas de hidráulicas.
Parece incontroverso que o desenvolvimento continuará a passar pela construção, operação e teste de protótipos no mar, apesar dos elevados investimentos que tais acções implicam, e pelo aproveitamento criterioso dos conhecimentos e experiência assim adquiridos.
Portugal é hoje um dos países que dominam a tecnologia das centrais de coluna de água oscilante (classificadas por vezes como sistemas de primeira geração) e respectivo equipamento incluindo a conversão por turbina de ar. A operação da central do Pico e seu acompanhamento, incluindo a montagem e teste de equipamento complementar, serão essenciais para desenvolver a capacidade de projecto e construção de centrais usando este tipo de tecnologia ou de equipamento. Uma oportunidade próxima é a construção prevista na Foz do Douro duma central, basicamente do mesmo tipo, integrada numa obra de protecção costeira. É de referir que a tecnologia da coluna de água oscilante, associada a estruturas fixas, tem sido considerada particularmente adequada para sistemas mistos de energia das ondas e eólica offshore, e que há sistemas offshore em desenvolvimento (Japão, Irlanda, Reino Unido) que utilizam turbinas de ar.
O desenvolvimento de sistemas de energia das ondas offshore mais dificilmente poderá ser efectuado no País sem a participação de parceiros estrangeiros, por exigir maior esforço financeiro, comportar maiores riscos, e ainda por ser escassa entre nós a experiência em tecnologias offshore. A localização na costa portuguesa do protótipo AWS em fase final de construção é uma oportunidade para Portugal se associar, com o envolvimento de empresas e instituições de I&D nacionais, ao desenvolvimento desta tecnologia offshore.
Mais geralmente, as condições naturais da costa portuguesa, as tarifas especiais estabelecidas para a energia das ondas e a existência de capacidade tecnológica específica nacional tornam Portugal um país particularmente interessante como base para a demonstração de tecnologias de energia das ondas (incluindo sistemas offshore), sendo de incentivar para isso a constituição de consórcios com participação nacional significativa.
É ainda de incentivar a formação de consórcios visando a exportação de tecnologia desenvolvida em Portugal.
Da análise anterior resulta que não há ainda uma actividade económica estabelecida na área da energia das ondas, pelo que as empresas que têm mostrado interesse nesta área encontram dificuldade em definir uma estratégia para a sua inserção e em avaliar as oportunidades de negócio associadas, e desconhecem possíveis parceiros a quem se associarem. Por outro lado, o objectivo último de exportar a tecnologia e os seus produtos aconselha a antecipar a ligação a possíveis parceiros localizados em regiões do planeta com recurso significativo em energia das ondas e sem experiência anterior nesta área. É igualmente importante acentuar que a conversão da energia das ondas é uma tecnologia em evolução, pelo que não é improvável que novos sistemas e equipamentos venham a revelar-se mais interessantes que os que estão actualmente em desenvolvimento, sendo por isso conveniente manter uma postura aberta e procurar cativar para o País o desenvolvimento de conceitos promissores. Em face destas considerações, e tendo em conta que existe actualmente no país um mecanismo de apoio financeiro à criação de novos centros tecnológicos, parece oportuna e recomendável a criação de um Centro de Energia das Ondas com as seguintes características e objectivos:
· Será uma entidade privada sem fins lucrativos cujos membros são empresas, fundações e instituições de investigação sedeadas em qualquer país, e que actuará em complementaridade com a European Wave Energy Network da Comissão Europeia e o Implementing Agreement on Ocean Energy da Agência Internacional de Energia.

- Será uma entidade permanente com existência física e um quadro de pessoal próprio reduzido.
- Será auto-financiado, através das cotas anuais dos sócios, da prestação de serviços e de financiamento parcial em projectos de I&D – após uma fase inicial de instalação em que será financiado ao abrigo das Acções A da Medida 3.1 do POE.
- Terá uma estrutura de gestão que reflicta o carácter internacional do centro e um equilíbrio entre a comunidade empresarial e a de I&D.
- Terá por objectivos:
o Promover a colaboração entre empresas, investidores, instituições de investigação e de financiamento e inventores com vista ao desenvolvimento, promoção e comercialização de centrais e equipamentos de utilização da energia das ondas.
o Desenvolver e divulgar informação relevante para a actividade dos associados.
o Realizar actividade de carácter tecnológico e, entre outros, estudos de mercado, estudos de impacto ambiental e estudos de avaliação de riscos.
Estando a tecnologia ainda em fase de demonstração, qualquer estimativa da contribuição das ondas para o sistema eléctrico nacional em 2010 terá um elevado grau de incerteza. Até cerca de 2003-2004 é de prever a existência de três protótipos (um já existente, outro em fase final de construção e outro planeado) com a potência total de cerca de 3 MW. Na fase seguinte de replicação, e até cerca de 2007-08, pode-se prever a instalação de cerca de 20-30 MW repartidos por um pequeno número de centrais de coluna de água oscilante em obras de protecção costeira (com potências unitárias de cerca de 0,5-1 MW), e um ou mais conjuntos de sistemas offshore com potências unitárias da ordem de 3-5 MW. A partir desta data e até 2010, e admitindo que as tecnologias actualmente em desenvolvimento (e eventualmente outras) terão então atingido a fase de comercialização, as perspectivas podem exceder 50 MW de potência instalada.

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