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Wilfredo
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« #3 : 30/03/07 - 03:51:29 » |
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3.7.2 Déjà-VuCaso se admitam respostas positivas para essas questões (mesmo que apenas para algumas delas), podem-se "resolver" muitos mistérios, admitindo-se que os mistérios realmente existam, é claro: - A telepatia estaria não só admitida, mas seria a base de toda essa "ciência". Sob este enfoque, não seria difícil explicar que certas pessoas tivessem (por motivos desconhecidos) capacidades anormalmente grandes de captar pensamentos de outras pessoas. A cartomante descrita no item poderia ser capaz de captar pensamentos transmitidos involuntariamente por seus interlocutores. A própria cartomante, entretanto, poderia não ter noção alguma de como o processo ocorre. Ao integrar as informações recebidas com o restante de seus conhecimentos e crenças, a cartomante poderia chegar à conclusão de que está vendo seu futuro mostrado pela alma de um guia espiritual qualquer, quando na verdade está vendo a imagem de uma fantasia ou de uma preocupação do "cliente".
- Segundo o espiritismo, quando acontece de alguém ver uma paisagem pela primeira vez e ter a forte impressão de que já a conhecia, isto seria porque a pessoa teria conhecido essa paisagem em outra encarnação. A propagação involuntária de conhecimento, explicaria esse mistério de forma diferente: a paisagem estaria no subconsciente da pessoa, que a teria recebido anteriormente (mesmo que muitos anos antes) e essa memória só teria aflorado à memória consciente quando a pessoa realmente viu a paisagem. Essa pessoa pode ter recebido a imagem de uma outra pessoa que realmente tenha visto a paisagem. Note-se, entretanto, que a pessoa pode apenas ter recebido uma imagem que lhe foi transmitida por uma pessoa que a havia recebido de uma terceira pessoa, que por sua vez a recebera de uma quarta, que por sua vez... Enfim, a imagem que estava na memória da primeira pessoa pode ter viajado através de muitos portadores e ao longo de muito tempo até ser identificada. Segundo esse enfoque, nem almas, nem reencarnação seriam necessárias para explicar o fenômeno.
- Através da hipnose, muitos afirmam conseguir ativar um processo de "regressão", pelo qual o paciente volta às lembranças de sua juventude, de sua infância, da época em que se encontrava ainda no útero materno e... de suas encarnações anteriores. Com relação a essa última etapa da regressão, e provavelmente também em relação à fase intra-uterina, a propagação involuntária de conhecimento teria outras explicações: As imagens e até as individualidades que o paciente tem na mente (e que o hipnotizador e hipnotizado podem interpretar como relacionadas a encarnações anteriores) não seriam nada além de informações recebidas involuntariamente. Essas informações podem, eventualmente, remontar a épocas há muito passadas. Note-se que as imagens e personalidades teriam sido transmitidas por pessoas vivas. As imagens e personalidades também teriam se propagado através de pessoas vivas. O fato de alguma imagem ou personalidade estar sendo trazida a uma mente consciente, por hipnose, apenas depois de alguns séculos de sua geração seria absolutamente normal. Não haveria almas nem reencarnações nesta explicação.
- A mediunidade seria outro equívoco de interpretação de um fato real. O médium espírita não estaria encarnando almas desencarnadas, mas apenas dando voz a cópias de personalidades que eventualmente se instalaram em sua mente. O médium seria alguém com uma capacidade anormalmente grande de captar comunicações telepáticas que contivessem personalidades. Outra possibilidade é a do médium ser capaz de criar personalidades assim como um autor cria personagens num romance. Pode ocorrer, por exemplo de um médium "incorporado" conversar com uma pessoa e conseguir deixá-la convencida de que falava com algum parente morto. Ora, mesmo que o médium nunca tenha conhecido tal morto, a personalidade deste pode lhe estar sendo transmitida durante o "trabalho" exatamente pela pessoa que o conheceu e que está conversando com o médium. O fato de alguns médiuns mostrarem habilidades anormais quando "incorporando" artistas, por exemplo, seria apenas uma "prova" de que habilidades e conceitos podem ser transmitidos pelo processo de propagação involuntária de conhecimento. O termo "incorporar", no caso, não estaria incorreto, pois o médium realmente está vivendo outra personalidade... A diferença é que, nesta interpretação não existem almas nem reencarnações.
- Uma variante da mediunidade seria a loucura. Se uma pessoa é capaz de captar pensamentos contendo personalidades e se essa pessoa tem um preparo ideológico (religioso) que condiz com a presença dessas individualidades, ela se torna médium, cartomante, pai-de-santo ou coisa que o valha. Por outro lado, nada impediria que uma pessoa captasse tais pensamentos e trouxesse-os à tona de sua consciência sem que isto tivesse relação com qualquer de suas crenças ou conhecimentos. Dependendo da pessoa, essa experiência poderia ser reconhecida como uma inspiração para um novo personagem, como uma fantasia, como um acesso de loucura, como caso de dupla personalidade, como possessão demoníaca ou comunicação de extraterrestres. Tudo não passaria de telepatia e de memorização subconsciente. As variações de pessoa para pessoa é que determinariam se o processo cria um grande médium ou um "napoleão" de hospício.
- As chamadas "viagens astrais" seriam outro caso em que a propagação involuntária de conhecimento traria novas luzes à realidade. Entende-se por viagem astral o desprendimento da consciência em relação ao físico, ou seja, uma pessoa pode estar sentada em seu quarto enquanto sua consciência viajaria livremente para outros locais. Há muita gente que afirma poder fazer tal coisa (e há multidões intermináveis que compram seus livros na esperança de repetir suas façanhas). Os que afirmam isto, normalmente associam sua capacidade a coisas como "desenvolvimento espiritual", "guias", "anjos", fidelidade absoluta aos preceitos de alguma religião e coisas do gênero. A propagação involuntária de conhecimento diria que se trata apenas de "viagens" através de memórias adquiridas involuntariamente e que se encontram a nível subconsciente. Outra explicação, já que se admite a telepatia, seria a "viagem" até a mente de outras pessoas e a captação de suas sensações em tempo real, ou seja, não o acesso às memórias de alguém, mas às suas sensações do momento. Apesar de tudo, todas essas explicações seriam condizentes com a crença de que a individualidade está no cérebro. Não haveria individualidades desencarnadas assim como não há voz sem que haja uma boca para emiti-la.
- Os crentes gostam muito de exaltar o poder das orações. A propagação involuntária de conhecimento teria algumas considerações a fazer: a prece seria uma forma de canalizar a transmissão de pensamentos. Dependendo do caso, o pensamento poderia influir nas decisões de outras pessoas, fazendo com que se realize algo próximo do desejo de quem rezou. Preces de agradecimento teriam mais efeito sobre o próprio orador, dando-lhe um certo bem-estar por ter agradecido, o que lhe tiraria culpas e pesos da consciência. Obviamente, esta versão não inclui um deus ouvindo preces e realizando intervenções no universo segundo pedidos de suas criaturas. Dessa forma, tudo depende das pessoas. Por mais que uma torcida reze, isto não garante a vitória de seu time, por exemplo. Por mais que se reze não se eliminam doenças incuráveis. Aliás, as curas "místicas" têm relação íntima com o poder das orações. Admitindo-se que elas realmente existam, tudo que a teoria da propagação involuntária do conhecimento teria a fazer é estender um pouco mais seu alcance. Basta agregar à teoria a hipótese de que o pensamento não apenas se propaga, mas que pode "atuar" no mundo físico. Haveria, então pessoas que por treinamento, hereditariedade ou condições externas conseguiriam transmitir pensamentos que por si só fariam coisas no mundo físico. Isto, além de explicar as curas místicas, explicaria uma outra série de mistérios como a telecinésia (movimentar objetos com a força do pensamento), o surgimento de fogo na cama de pessoas (coisa já divulgada em telejornal em rede nacional), aparições de fantasmas e até de discos-voadores. Todas estas explicações baseiam-se apenas na crença da existência de uma capacidade natural das pessoas de transmitir pensamentos e de que esses pensamentos eventualmente possam agir fisicamente. O mundo continuaria sendo dos vivos (sem duplo sentido). Não haveria entidades sobrenaturais, nem outras dimensões, nem vida que não fosse biologicamente viva, nem deus.
- Para finalizar, faça-se uma última reinterpretação: deus. Segundo a propagação involuntária de conhecimento não existe deus, nem existem almas, nem existe vida após a morte. O que as pessoas chamam de deus seria apenas uma versão telepática do "inconsciente coletivo" de Jung. Por ser telepático, esse coletivo teria realmente algumas qualidades de deus, como a onipresença e a onisciência. Por ser de origem puramente humana, esse coletivo teria características humanas como a bondade e a justiça. Isto explicaria algumas incoerências de deus (apontadas no item ). é claro, que esse deus (o telepático inconsciente coletivo), embora pudesse existir, não seria nem um pouco parecido com o deus das religiões. Não seria sequer digno de ser cultuado, pois seria apenas o resultado da somatória das consciências humanas (e, quem sabe, das não-humanas também). Esta explicação, entretanto ainda não responderia uma questão importante para os crentes: a criação do universo e da vida. Bem, basta extrapolar a teoria, como sempre. Ora, se estamos evoluindo ao longo de milhões de anos, esse inconsciente coletivo estaria evoluindo também. Num futuro distante, daqui a bilhões de anos talvez, o cérebro humano terá atingido tal ponto de evolução que a transmissão telepática de informações provavelmente deixará de ser involuntária para se tornar o meio usual (e voluntário) de comunicação. Nesta altura, o inconsciente coletivo estaria desenvolvido a um ponto tal que é impossível imaginar todas suas potencialidades. Ora, já se teria admitido que pensamentos podem voltar no tempo e que também podem atuar no mundo físico. A junção telepática de todas as mentes do universo seria uma entidade tão poderosa que não lhe seria muito difícil fazer as duas coisas simultaneamente, ou seja, voltar no tempo até a época em que o universo não existia e então criar o universo (!!!). Note-se que esse eterno recriar de universos não se daria seqüencialmente ao longo do tempo, mas, devido à volta no tempo, ocorreria "paralelamente". Seriam o que se chamam de universos paralelos. O problema é que o processo de modificar o começo da história faria com que o universo atual deixasse de existir, incluindo o (in)consciente coletivo que reiniciou o processo. Toda a história seria recontada, do começo. Não seria, contudo, a repetição da mesma história, mas um recomeço independente, sujeito a todas as incertezas e possibilidades de uma evolução não guiada. Seriam necessários novos bilhões de anos para a formação de planetas, para a criação da vida, para o surgimento da inteligência, da telepatia e de um novo deus (ou inconsciente coletivo telepático). Esta teoria compatibilizaria as tradições ocidentais e orientais a respeito de cosmogênese. O universo realmente teria um começo e um final, como é comum se acreditar no ocidente. Antes do começo não haveria nada. Depois do final também não haveria coisa alguma, pois, devido à volta no tempo, o reinício se daria no passado e não no futuro. Esses infinitos reinícios estariam de acordo com as tradições orientais sobre a história do universo. O inconsciente coletivo seria a o resultado da soma das inteligências do universo. Esse deus seria o deus panteísta, um deus-conseqüência. No que diz respeito à próxima recriação do universo, entretanto, esse inconsciente coletivo seria o criador, seria o deus-causa, a causa primária. Enfim, uma explicação que conseguiria agradar crentes e ateus, orientais e ocidentais, gregos e troianos.
Entretanto, toda esta construção tem características de irrefutabilidade semelhantes às de qualquer misticismo. Por que não foi usada em lugar da construção toda povoada de deuses e almas? Uma resposta possível é que a propagação involuntária de conhecimento não tem seres superiores e não dá a oportunidade de se criarem castas de sacerdotes que serviriam para intermediar a comunicação entre deuses e simples mortais. Outra resposta é que esta teoria não oferece o consolo de uma vida pós-morte nem um objetivo místico para a vida. Ainda outra explicação, é que esta teoria não facilita a imposição de padrões de comportamento baseados em mandamentos divinos. Enfim, pode ser ainda, que se trate de uma teoria realmente inédita, mas essa opção tem probabilidade muito pequena de ser verdadeira. Muita fantasia? Depois de desenvolver esta fantasia independentemente, este autor descobriu algumas coisas interessantes. Há uma tendência na física moderna para se considerar a informação como um elemento fundamental da natureza (assim como a matéria, quantidade de movimento, energia, etc.). A teoria da informação foi iniciada por Claude Shannon, um engenheiro eletricista norte-americano, preocupado com os problemas das transmissões de mensagens telegráficas. Essa teoria vem se desenvolvendo e, segundo Mário Schenberg, físico brasileiro, parece que será de grande importância para o futuro da física. Há uma outra coisa: a teoria da propagação involuntária do conhecimento mostra um mundo essencialmente probabilístico, com acontecimentos se sucedendo de forma aleatória, casual. Isto porque não admite um deus regendo destinos, determinando o futuro. Albert Einstein, além de grande físico, foi também um homem que ajudou a divulgar seus ideais políticos e filosóficos. Aparentemente, ele acreditava em um deus que determinasse cada passo de cada partícula do universo. Todo seu estudo e sua pesquisa se voltaram para descobrir regras determinísticas para a física, pois, segundo ele, " deus não joga dados". De Einstein até hoje a física tem se desenvolvido enormemente, desvendando aos poucos os mistérios sobre a história e a constituição do universo. Pois bem, todo o desenvolvimento da física, no século XX, tem se dado com base na mecânica quântica, que é uma teoria essencialmente probabilística, ou seja não-determinística. Stephen Hawking, o físico mais famoso de nossos dias, provavelmente também acredita em deus, mas já sentenciou que " deus não apenas joga dados, mas o faz até mesmo onde menos se espera". Deve-se notar que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia não está evidenciando nenhuma inteligência que comande cada picuinha do universo. Ao contrário, o universo se mostra cada vez mais claramente como definido por um conjunto pequeno de regras absolutamente gerais, impessoais e amorais. é interessante citar, neste ponto, que " Einstein parecia se opor ao probabilismo essencial da teoria quântica porque estava convicto de que ela conduziria a fenômenos do tipo telepático", segundo Mário Schenberg, em seu livro "Pensando a Física". Seria então a Propagação Involuntária de Conhecimento apenas fantasia? Pura fantasia ou não, certamente haverá aqueles que gostarão dessas idéias. é bom deixar claro que esta teoria é tão recomendável quanto qualquer outro misticismo. Pode-se até acreditar nela, mas construir uma filosofia de vida baseada neste conjunto de hipóteses irrefutáveis é tão ruim quanto basear a vida numa filosofia que inclua gnomos e fadas, ou então deuses e demônios. [Fim da transcrição]
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