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Não é difícil encontrarmos cotidianamente os novos niilistas, supostos filhos de Schopenhauer. Pessoas que parecem estar em volta a depressões de ordem existencial, não vendo assim qualquer sentido na vida. Podem se vestir de preto, usar maquiagem pesada, fazer-se de incompreendidas ou ouvir rocks modernosos que parecem sugerir uma dor tão intensa quanto gratuita. Ao som de Radiohead e Placebo muitos jovens de nossa época ingerem altas dozes de Prozac e fazem o não pouco estranho ato de tentar o suicídio.
Mas qual é o discurso dessa gente? Certamente qualquer coisa, menos as sábias e profundas conclusões do gênio Schopenhauer. Ele parecia não ver sentido no senso comum, pois tinha uma visão crítica dos valores de nossa sociedade e também de nossa existência. Não aceitava a hipocrisia de fachada usada nas relações de conveniência e até mesmo nas relações que envolviam o dito sentimento incondicional; era um cético e crítico das aparências e incoerências humanas. O alemão criticava a tolice e a banalidade com que o homem trata o seu real papel no mundo, para então justamente concluir que esse papel é tão misterioso a ponto de não parecer ter qualquer significado maior; que existir é um doloroso e inútil passatempo. Essa ânsia por compreender o significado da existência e o comportamento padronizado e fútil dos homens criou uma nova geração, que ironicamente propõe um apelo ao vazio e à gratuidade da indiferença com a existência. A Nova Era trouxe pessoas que julgam as religiões como apenas meras opiniões, e a ciência como mais uma forma inútil de tentar compreender o inexplicável; as discussões perderam o sentido, já que antes de qualquer reflexão vem o desejo por um nada tolo, certamente uma herança do relativismo que assombra nossa época. Mas algumas questões nos acicatam a alma: se a indiferença com a vida é como costumam dizer, então por que tomar remédios, olhar para os dois lados antes de atravessar a rua, dirigir de olhos abertos, etc.? Por que se preocupar com o que não tem sentido? Talvez fosse até mais sensato que essas pessoas contribuíssem para a evolução da espécie, e, em vez de eventualmente tentarem o suicídio, concretizassem de fato tão banal atitude. Afinal, se existir é tão doloroso e inútil, por que não acabam com isso imediatamente? Certamente porque essas pessoas não parecem compreender, ou, o que é pior, nem mesmo acreditar no que dizem. Isso não fica difícil de ser percebido ao constatarmos que no fundo o cotidiano dos novos niilistas não difere das demais pessoas. Eles escutam músicas da MTV, vêem filmes de Hollywood, compram a moda vendida em shoppings, comem fast-food e freqüentam boates tão alternativas quanto modistas; isso para não lembrar que costumam exercer os valores que aparentam criticar. Em uma entrevista à Tribuna do Planalto o escritor e crítico Affonso Romano alerta para isso. “Ficar repetindo esses tiques de marginalidade, de cabelo espetado, punk, cara feita, tudo isto é já sistema. Quando vejo essas fotos de conjuntos musicais tentando imitar os ‘bad boys’ dos anos 50 e 60 me parece foto de formatura. Vejo-os de uniforme. Estão de uniforme, pensando que estão nus. Estão se iludindo. Representam o mercado fingindo que são contra-cultura”, diz ele. O novo niilismo é de uma gratuidade e vazio ideológico que chega a assustar. Afinal, quem não ficaria espantado ao perceber alguém calçando Allstar, usando roupas industrialmente rasgadas, com piercings espalhados pelo corpo, óculos de armação escura (muitas vezes sem grau), tudo isso ao som da mais nova canção de Coldplay, dentro de uma boate alternativa da moda, atualizando seu fotolog dark com questões não mais profundas que as propostas pela Kelly Key? Ironicamente, esse susto parece servir de status e alicerce para essa nova onda de incompreensões óbvias. |