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O pós-modernismo é assombrado por numerosas e complexas questões. Das mais intrigantes e presentes, destacam-se o relativismo extremo e o desejo obsessivo pela felicidade. Essa última, julgada como o único meio e dever para se atingir a plenitude humana. Parece já haver até mesmo uma fórmula prontinha para se alcançar tão sonhada missão. Segundo o romancista francês Pascal Bruckner, essa idéia se consolidou em meados de 1968, quando se fez uma revolução em nome do prazer, da alegria e da voluptuosidade, posteriormente alimentada pela mídia. Ele enfatiza que a felicidade virou uma obrigação, um símbolo de status e uma fonte permanente de tédio e angústia. Parece haver grande tendência de correr a vida toda atrás dela, e então encontrar não a felicidade em si, mas uma profunda e permanente inquietação. A felicidade pode ter se tornado uma prisão.
Aliado a essa angústia, gerada pela obrigação de se sentir feliz, está o fato de que tudo na sociedade pós-moderna tende a urgir. Se não for agora, não será bom, eis o mote. O prazer então não se estende, mas é rapidamente cessado pela ânsia e voracidade com que é buscado. A filósofa irlandesa Iris Murdoch dizia que a sabedoria não traz felicidade; ela traz a capacidade de reconhecer tal momento. Certamente também uma resposta àqueles que pregam a ignorância como caminho infalível à felicidade. Apresentar a ignorância como único ou principal meio para ser feliz certamente é um discurso superficial e simplista. A começar pela estatística, já é possível observar que não há nenhum índice ou relação de aumento na felicidade quando se trata de parcelas ignorantes da população. Não é difícil também perceber que a ignorância impede a resolução de inúmeros impasses e obstáculos encontrados no decorrer da vida. E isso causa um sofrimento cíclico, em princípio sem solução. Certa vez Isaac Asimov alertou pra isso, dizendo que se o conhecimento pode criar problemas, não será através da ignorância que serão solucionados. É fato que fugir de questões que envolvem as pessoas diretamente dificilmente trará qualquer tipo de satisfação ou prazer. Anton Bruckner propôs que a felicidade é um valor secundário, e que seria bom enfatizar isso para que não se sintam culpadas as pessoas que não chegam a ser felizes. Um recente artigo inglês propôs quatro perguntas para definir a felicidade moderna: 1. Você é flexível, bem disposto e aberto para mudanças? 2. Você olha para a vida positivamente, se recupera logo dos revezes e acha que tem tudo sob controle? 3. Suas necessidades básicas como saúde, dinheiro, segurança, liberdade de escolha e senso de comunidade estão sendo atendidas? 4. Você pode contar com ajuda de pessoas próximas, se concentrar no que faz e envolver-se em atividades que lhe dão uma sensação de ter um propósito? Segundo eles, quem conseguir responder sim a todas as perguntas pode dormir tranqüilo, pois é uma pessoa feliz. É de se pensar que o conceito de felicidade como um estado constante e permanente não seja perfeitamente coerente. Talvez seja mais sensato denominar a pessoa acima de tranqüila, satisfeita - não necessariamente imutável - e de bem com a vida. Felicidade parece mais aquele certo momento na vida em que realmente se sente que tudo está perfeito, e que absolutamente nada pode demover daquele estado de euforia. Assim, seria mais pertinente dizer que ninguém pode ser feliz, porque a felicidade não é um estado permanente. Dessa forma, as pessoas podem estar felizes em um determinado instante, que é um estado transitório, e, por isso, especial de alguma forma. E é possível ficar feliz com muitas coisas. Tudo depende dos valores de cada um. Alguém pode ficar feliz porque ganhou na loteria ou porque comprou um CD do Sinatra ou porque o vizinho chato se mudou para Nova Zelândia; tanto faz. O que parece precipitado é propor uma "verdadeira felicidade", como uma espécie de prêmio obtido por se ter agido de uma maneira X. A felicidade é uma emoção, e as emoções são sempre sinceras, pessoais e efêmeras, senão seriam banais. A idéia de que a vida tem como objetivo final a felicidade e que essa é obtida através de um conjunto determinado de ações é um conceito desta época, e conceito esse que soa demasiado raso. Existem outros sentimentos e situações tão ou mais importantes, como a liberdade, paixão, reflexão, amizade, capacidade de enfrentar problemas, independência intelectual, etc. Ademais, é de conhecimento que uma felicidade constante tornaria os seres insanos e desprovidos de qualquer crítica e mudança. A felicidade é necessariamente um estado em que as pessoas se encontram embriagadas de prazer, não desejando assim nenhuma alteração. Assim propôs o filósofo Schopenhauer ao dizer que à medida que os prazeres aumentam, a sensibilidade diminui; o hábito já não é um prazer. Ele ainda enfatiza ao dizer que as horas passam lentamente quando se está triste; correm rapidamente quando são agradáveis; porque a dor é positiva e faz sentir sua presença. Mas será que a ignorância e a burrice trazem felicidade ou algum tipo de vantagem em relação à sabedoria e à inteligência? Como muitas crises podem sugerir, seria mais válido não perceber que se está sendo usado por alguém, feito de fantoche? Seria mais vantajoso ser tão tolo a ponto de nem ter ciência desses acontecimentos? Os filósofos não seriam pessoas muito mais perturbadas e infelizes justamente por serem assombrados por numerosas questões de alta complexidade e sem aparente resposta? A ignorância e a burrice não seriam então uma benção? Assim questionou Voltaire, o pensador que defendia a clareza do discurso, com o conto História de um brâmane: "Encontrei nas minhas viagens um velho brâmane, homem bastante sábio, cheio de espírito e erudição;. de resto, era rico, e por isso mesmo ainda mais sábio; pois, como nada lhe faltasse, não tinha necessidade de enganar a ninguém. Seu lar era muito bem governado por três belas mulheres que porfiavam em agradar-lhe; e, quando não se divertia com elas, ocupava-se em filosofar. Perto de sua casa, que era bonita, bem ornamentada e cercada de encantadores jardins, morava uma velha hindu carola, imbecil e muito pobre. — Quem me dera não ter nascido! — disse-me um dia o brâmane. Perguntei-lhe por quê. — Há quarenta anos que estudo — respondeu-me — e são quarenta anos perdidos: ensino aos outros, e ignoro tudo; esse estado me enche a alma de tal humilhação e desgosto, que me torna a vida insuportável. Nasci, vivo no tempo, e não sei o que é o tempo; acho-me num ponto entre duas eternidades, como dizem os nossos sábios, e não tenho a mínima idéia da eternidade. Sou composto de matéria, penso, e nunca pude saber por que coisa é produzido o pensamento; ignoro se o meu entendimento é em mim uma simples faculdade, como a de marchar, de digerir, e se penso com a minha cabeça como seguro com as minhas mãos. Não só o princípio de meu pensamento me é desconhecido, mas também o princípio de meus movimentos: não sei por que existo. No entanto, cada dia me fazem perguntas sobre todos esses pontos; é preciso responder; nada tenho que preste para lhes comunicar; falo bastante, e fico confuso e envergonhado de mim mesmo após haver falado. O pior é quando me perguntam se Brama foi produzido por Vixnu, ou se ambos são eternos. Deus é testemunha de que nada sei a respeito, o que bem se vê pelas minhas respostas. “Ah! meu reverendo – imploram-me, – dizei-me como é que o mal inunda toda a terra”. Sinto-me nas mesmas dificuldades que aqueles que me fazem tal pergunta: digo-lhes algumas vezes que tudo vai o melhor possível; mas aqueles que ficaram arruinados ou mutilados na guerra não acreditam nisso, nem eu tampouco: retiro-me acabrunhado da sua curiosidade e da. minha ignorância. Vou consultar nossos antigos livros, e estes duplicam as minhas trevas. Vou consultar meus companheiros: respondem-me uns que o essencial é gozar a vida e zombar dos homens; outros julgam saber alguma coisa, e perdem-se em divagações; tudo concorre para aumentar o doloroso sentimento que me domina. Sinto-me às vezes à borda do desespero, quando penso que, após todas as minhas pesquisas, não sei nem de onde venho, nem o que sou, nem para onde vou, nem o que me tornarei”. O estado desse excelente homem me causou verdadeira pena: ninguém tinha mais senso e boa-fé. Compreendi que, quanto mais luzes havia no seu entendimento a mais sensibilidade no seu coração, mais infeliz era ele. Vi, no mesmo dia, a velha sua vizinha: perguntei-lhe se alguma vez se afligira por saber como era a sua alma. Nem chegou a entender minha pergunta: nunca na sua vida refletira um momento sobre um só dos pontos que atormentavam o brâmane; acreditava de todo o coração nas metamorfoses de Vixnu e, desde que algumas vezes pudesse conseguir água do Ganges para se lavar, julgava-se a mais feliz das mulheres. Impressionado com a felicidade daquela pobre criatura, voltei a meu filósofo e disse-lhe: — Não te envergonhas de ser infeliz, quando mora à tua porta um velho autômato que não pensa em nada e vive contente? — Tens razão – respondeu-me ele; – mil vezes disse comigo que seria feliz se fosse tão tolo como a minha vizinha, e no entanto não desejaria tal felicidade. Essa resposta me causou maior impressão que tudo o mais; consultei minha consciência e vi que na verdade também não desejaria ser feliz sob a condição de ser imbecil. Expus a questão a filósofos, e eles foram da minha opinião. “No entanto – dizia eu, – há uma terrível contradição nessa maneira de pensar”. Pois de que se trata, afinal? De ser feliz. Que importa, pois, ter espírito ou ser tolo? Mais ainda: aqueles que estão contentes consigo estão bem certos de estar contentes; mas aqueles que raciocinam não se acham tão certos de bem raciocinar. “É claro – dizia eu – que se deveria preferir não ter senso-comum, uma vez que este contribua, o mínimo que seja, para o nosso mal-estar.” Todos foram de minha opinião, e todavia não encontrei ninguém que quisesse aceitar o pacto de se tornar imbecil para andar contente. Donde concluí que, se muito nos importamos com a ventura, mais ainda nos importamos com a razão. Mas, refletindo bem, parece uma insensatez preferir a razão à felicidade. Como se explica, pois, tal contradição? Como todas as outras. Aí há muito de que falar."
O suposto conhecimento do brâmane o tornava infeliz. Mas seria isso que o tornava infeliz ou sua incapacidade de fazer uso desse conhecimento? Não seria sua incompetência para conhecer que o tornava infeliz? Pelo o que parece, ele obtinha um conhecimento que, na realidade, era vão, e não sabia sequer interpretar o que ele próprio fazia. De certa forma, era tão ignorante quanto o velho. Porém, com uma diferença: o velho não tinha obrigações para com o conhecimento, ao contrário do brâmane. Afinal o que fazer com a Filosofia e o conhecimento? É nítido que os questionadores normalmente são incomodados com muitas questões que os ignorantes jamais irão vislumbrar. É inegável que os filósofos têm preocupações intelectuais as quais a massa nem mesmo tem conhecimento, quem dirá compreensão. Mas o inverso também existe, e precisa ser lembrado: existem inúmeras questões que assombram o mundo dos burros e ignorantes que jamais irão perturbar um sábio. A questão então seria colocar numa balança e ver o que pesa mais. Outro ponto que normalmente é deixado de lado é o encantamento que um filósofo pode ter ao formular e discutir questões. Pode-se ficar fascinado ao questionar a existência por si só, ou ao ver uma foto de um aglomerado de galáxias, e até mesmo ao analisar o comportamento humano, por exemplo. São questões que um ignorante certamente não entende, e, portanto, jamais vai apreciar. Pode-se até defender essa idéia para coisas mais mundanas, como músicas, filmes e livros mais refinados, que certamente são admirados em sua plenitude apenas por pessoas com mais bagagem. É de se considerar também que na vida diária certamente aparecem problemas, e que simplesmente tentar ignorá-los pode até gerar um alívio temporário. Mas seria essa a melhor forma de lidar com eles? Enfrentar o sofrimento diretamente não faria com que se tivesse mais condições de avaliar a profundidade e a natureza do problema? Assim como em uma batalha, enquanto se ignorar as condições e a capacidade de combate do inimigo, estar-se-ia completamente despreparado e exposto. No entanto, conhecendo a capacidade de luta dos adversários, os tipos de armas que eles têm e assim por diante, ter-se-ia muito mais condições de ganhar. Do mesmo modo, parece que enfrentar os problemas, em vez de ignorá-los, fará com que se saiba melhor como lidar com eles, resolvê-los e evitá-los futuramente. É de se considerar o exemplo de um homem do paleolítico, desesperado porque a noite fria está chegando, e ele não consegue acender o fogo, batendo a madeira na própria cabeça. Essa ignorância lhe traz felicidade? Agora, um engenheiro mecânico tendo um problema com o seu carro na estrada não estaria muito mais ciente e capaz de resolver esse problema do que um leigo? O conhecimento dele trouxe tristeza? Se uma pessoa em crise não tem experiência e sabedoria para lidar com esse momento, ela tende a sofrer mais intensa e demoradamente. Quando lhe falta inteligência e conhecimento para resolver e lidar com a situação ela se vê infeliz. Muitos podem alegar que se tem o direito de sofrer com os acontecimentos, especialmente aqueles que não se tem como controlar ou evitar. Inclusive, nesses momentos é comum que se aprenda e mude a maneira de enxergar determinado assunto. Mas será que sempre vale a pena sofrer? Será que não ocorre também de se sofrer em demasia, desnecessariamente? Não seriam essas situações evitadas se houvesse mais maturidade e sabedoria? Por exemplo: uma pessoa está muito atrasada para um encontro, esperando aquele ônibus que não chega. Nessa situação, alguns mais precipitados podem ficar desesperados, olhando o relógio a cada minuto, suando frio, pensando em inúmeras hipóteses trágicas do que poderá ser aquele atraso em suas vidas, etc, etc. Uma pessoa mais centrada e tranqüila, por outro lado, pode pensar e concluir que sua incapacidade para mudar a situação não vale qualquer desgaste ou irritação. A idéia aqui não é negar que os relacionamentos apresentem desgastes e tristezas – e é de se considerar que quanto mais alta a aposta, maior pode ser esse sofrimento, assim como maior pode ser o prazer. Ser sábio certamente não é eliminar todos os empecilhos da vida, mas apenas saber melhor como lidar com os poucos que já se cuidou de minimizar. A vida, com todas suas perplexidades, certamente envolve altas doses de conflitos, desgastes e decepções, e isso é simplesmente inevitável em sua totalidade. Mas como lidar com isso? Como fazer para que esses empecilhos não surjam tão numerosamente, como nas novelas e na vida do grande povão, que a cada virada de pescoço acarreta brigas infindáveis? Talvez um pouco de reflexão e simplicidade. Embora o sábio lide com questões das mais complexas, ele é um sujeito simples, que pretende ter parcimônia e o bom senso de simplificar as coisas. Relembrando Asimov, diante de uma situação incômoda a reflexão tem o papel de permitir que haja a possibilidade de uma solução, enquanto que ignorar não só não resolve, como propõe uma passividade que na melhor das hipóteses só mantém aquele problema. Ter liberdade intelectual não é sempre um problema, mas, como é possível notar, em boa parte das vezes é o começo de toda solução. Assim, parece nítido que o bem mais precioso e difícil não é ser feliz, nem muito menos ignorante, mas sim ter compromisso com a verdade. |