Distorções quânticas PDF E-mail
Escrito por Delerue   
01-Mai-2006
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Distorções quânticas
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                Quem Somos Nós? (What the #$*! Do We (K)now!?1, EUA, 2004), foi um dos filmes de não-ficção com maior sucesso de bilheteria americana, desde Tiros em Columbine (Bowling for Columbine, EUA, 2002), de Michael Moore. A princípio, a idéia de mesclar ficção com entrevistas em formato de documentário parece funcionar, trazendo à tona muitas e antigas questões perturbadoras e tornando tudo menos maçante através da identificação com a história vivida pela protagonista Amanda. Apesar de sugerir uma avalanche honesta de dúvidas metafísicas essenciais, o filme peca por ter uma abordagem incisivamente pseudocientífica, não só misturando conceitos não-associáveis, como também distorcendo-os.

fLogo no início, afirma-se que o mundo existe de acordo com nossas experiências pessoais. Fala-se que o planeta já foi considerado plano, que hoje é considerado esférico, e que, portanto, podemos estar errados atualmente, ou ainda, que nunca saberemos o que está realmente certo. Embora esse tipo de argumentação extrapole nosso conhecimento, é possível contra-argumentar (nas palavras de Isaac Asimov, no texto de leitura obrigatória A relatividade do errado2): “Quando as pessoas pensavam que a Terra era plana, elas estavam erradas. Quando pensaram que a Terra era esférica, elas estavam erradas. Mas se você acha que pensar que a Terra é esférica é tão errado quanto pensar que a Terra é plana, então sua visão é mais errada do que as duas juntas. O problema básico é que as pessoas pensam que ‘certo’ e ‘errado’ são absolutos; que tudo que não é perfeitamente e completamente certo é totalmente e igualmente errado. [...] Naturalmente, as teorias que temos hoje podem ser consideradas erradas num sentido simplista, mas em um sentido muito mais verdadeiro e mais sutil, elas precisam somente ser consideradas incompletas”. Esse tipo de idéia de que só compreendemos o que faz parte do nosso mundo é levado às últimas conseqüências quando o filme sugere (sem qualquer tipo de evidência) que os índios da América, nos tempos da descoberta européia, não eram capazes de ver, literalmente, os navios espanhóis chegando às suas praias, porque esses aparelhos não faziam parte dos seus “paradigmas” (termo científico utilizado incorretamente, indo de encontro ao conceito cunhado por Thomas Kuhn). Isso parece ignorar que os índios já possuíam pequenos barcos, e, portanto, não seria nada difícil ver e compreender um barco maior. E não apenas isso. O longa parece esquecer o número infinito de coisas que vemos e não compreendemos ou que descobrimos sem antes sequer ter uma ligeira noção. Uma nítida confusão entre ver e compreender. Para concluir essa seqüência, é dito, sem qualquer hesitação, que a realidade é subjetiva e dependente do ponto de vista de quem a observa (o já famoso e anti-lógico ‘tudo é relativo’); idéia essa que, como se percebe posteriormente, é o mote do filme. Mas é preciso esclarecer que esse pensamento solipsista de que criamos a nossa realidade mentalmente (já abordada por alguns filósofos, como Descartes) é apenas uma hipótese (embora muito questionável), mas jamais um fato. Ela está no campo da Filosofia, e não da Ciência. Mesmo porque é uma afirmativa não-falseável, ou seja, não há como imaginar uma maneira efetiva de refutá-la3. E ficam pendentes ainda muitas questões de relevância. Se criamos e controlamos nossa própria realidade, então por que ainda ficamos doentes, pobres, famintos, etc.? Ou por que muitas vezes sofremos interferência de fenômenos que só descobrimos posteriormente? E faltam, claro, experimentos controlados para sustentar tanta presunção.

1 Onde “#$*!” também pode ser lido como bleep (pequeno som de alta freqüência), que, segundo os diretores, seria uma espécie de auto-censura para a palavra fuck.

3 O artigo Realismo e Verdade tenta desmistificar o tema de maneira bem sucinta e objetiva. Está disponível em: http://rdelerue.discovirtual.uol.com.br/disco_virtual/Teste/realismo_verdade.doc (senha adrena).

 


Atualizado em ( 31-Mar-2008 )
 
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