Distorções quânticas PDF E-mail
Escrito por Delerue   
01-Mai-2006
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Distorções quânticas
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Quando o físico alemão Werner Karl Heisenberg disse que átomos são possibilidades ele não quis afirmar que são o que nossa experiência pessoal diz, como sugere Amit Goswami1 (parceiro de trabalho de Deepak Chopra2), no filme. Mas que são elementos com uma ordem que tende ao caos. Por não conseguirmos ainda prever o comportamento dessas partículas, costumamos dizer que elas têm tendências, que é um termo mais abrangente, justamente pra abarcar nossa atual incapacidade de compreensão. A respeito de uma suposta experiência relatada no longa em que se prova que dois objetos visíveis a olho nu estão em dois lugares ao mesmo tempo, parece ter havido uma grande precipitação. O filme provavelmente tenta fazer uma alusão ao Principio da Superposição da Mecânica Quântica3, o qual teve um experimento intitulado "escolha retardada"4, proposto inicialmente por John Wheeler, em 1978, e realizado aparentemente com sucesso em 1984, onde supostamente se demonstrou que um fóton pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. De acordo com a física quântica, uma carta de baralho hipotética, perfeitamente equilibrada na borda, cairá em duas direções ao mesmo tempo. Na prática, esse experimento é impossível com uma carta de verdade. Mas situações análogas já foram demonstradas com elétrons, átomos e objetos do mundo quântico um pouco maiores. Mas mesmo esses precários experimentos ainda estão às voltas com muitas controvérsias e questionamentos. Por isso, é uma grande precipitação por parte do entrevistado e do filme afirmarem que já foi cem por cento comprovado que um objeto visível a olho nu pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. E ausência de parcimônia não é algo que combine com o Método Científico.

Posteriormente, o mesmo sujeito afirma ainda que a presença do observador não pode ser ignorada, alegando de maneira muito vaga que a consciência, per se, tem influência nos fenômenos quânticos e, por conseqüência, nos fenômenos palpáveis, do dia-a-dia. Essa idéia é uma distorção do Princípio da Incerteza5, de Heisenberg. A coisa não é realmente assim. Não é a presença do observador por si só que causa a alteração do comportamento do experimento, mas sim o método físico de observação, que precisa inevitavelmente interagir para extrair dados. Ou seja, não haveria como observar a posição de um elétron, exceto fazendo alguma coisa (como a luz) rebater nele, algo que fatalmente iria alterar seu comportamento. São esses pequenos detalhes que o filme se aproveita para distorcer a seu gosto, e concluir idéias assombrosamente absurdas. Por exemplo, a afirmação de que certa meditação diminuiu os crimes em Washington D.C. não tem qualquer fonte, e o método, ainda que não tenha sido explicado no filme, possui questionamentos de alta relevância. Por que não houve uma reprodução do suposto experimento por cientistas independentes? Por que não utilizaram um grupo controle? E por que motivo esse trabalho não foi publicado em um jornal científico de reputação? No mais, o que aconteceria se meditássemos para conseguir coisas até então impossíveis, como a cura da AIDS, do câncer ou o fim das guerras e da fome? Ou ainda: por que os grandes mistérios da Ciência não aparecem com a meditação? Ou será que o suposto experimento tentou constatar algo que poderia acontecer com ou sem meditação? Em uma analogia grosseria, seria como tomar água e constatar a cura de uma gripe, que não precisa necessariamente de medicamentos para ser eliminada. Isso definitivamente não é Ciência, por definição. E certamente se enquadra no tipo de argumento non sequitur6 e post hoc7.

1 Além disso, ele afirma que: o Universo é autoconsciente, almas são um fato, deus já foi provado através da mecânica quântica, e o mundo deixa de existir quando fechamos os olhos. Resta saber onde estão esses supostos estudos, porque, se existentes, seriam um choque revolucionário no que hoje se entende por Ciência.

2 Mais informações sobre charlatões quânticos aqui: http://www.str.com.br/Str/quantico.htm

6 Argumento onde é usada uma premissa que não parece ter qualquer relação com a conclusão.

7 Argumento que se baseia no erro de que porque uma coisa sucede após outra, a primeira foi causa da segunda.

Atualizado em ( 31-Mar-2008 )
 
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