Distorções quânticas PDF E-mail
Escrito por Delerue   
01-Mai-2006
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Distorções quânticas
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A seqüência que se passa no metrô, onde Amanda tem conhecimento do suposto experimento da água e suas formas, realizado por Masaru Emoto, é outro que evita qualquer tipo de aprofundamento1. E, além de ter os mesmos problemas do suposto experimento em Washington D.C., ainda tenta alegar que a água (1) “pode responder a eventos não físicos”, embora isso jamais se explique, (2) capta pensamentos ou, pior, sabe ler rótulos em japonês (!), (3) grava esses pensamentos e idéias (algo, inclusive, que vai contra diversos estudos que falharam categoricamente em propor que a água tem, na prática, memória2), (4) julga esses pensamentos com a mesma moral que se tem atualmente como padrão, desconsiderando ainda que mesmo hoje definitivamente haja locais e culturas que tenham morais bem distintas, e (5) que existe um padrão rígido de beleza e feiúra. Esse tipo de construção é perigosa, pois, somada com o que já se viu do filme, pode supor que o pensamento muda nosso corpo a nosso gosto. E isso não é bem verdade, haja vista a necessidade de remédios (que o filme, aparentemente baseado nas idéias insanas de Chopra, também sugere desnecessária, o que, sem medir palavras, é algo criminoso), assim como a existência de tantos males a pessoas que nitidamente não desejam aquilo pra si. Talvez haja um apelo ao que o outro pensa, podendo nos influenciar direta ou indiretamente. Mas como iríamos medir isso? O filme nem ousa focar esses pontos. Não é de estranhar que as idéias seguintes sugeridas sejam justamente essas de ‘tudo podemos quando cremos’. “Pode-se até mesmo andar sobre a água se realmente acreditarmos nisso”, ouve-se pouco depois na entrevista com um suposto especialista, que, na verdade, é um padre católico. Idéia extremamente absurda e que contraria todo o conhecimento científico que se tem atualmente. Só que, como esperado, o filme não se atreve a desenvolver essa afirmação. Mais uma vez, a questão principal aqui não parece de fato científica (pela impossibilidade de ser comprovada), mas filosófica. Assim, algumas dúvidas retornam: por que existiriam tantos males naturais ou por que cometeríamos tantos erros e sofreríamos tanto? Somos todos descrentes do nosso bem-estar? Por fim, parece que esse tipo de argumento cai numa falácia do tipo Ad Ignorantiam3, pois fica sugerido que se conseguimos algo é porque cremos, mas se não conseguimos é porque não cremos de verdade. Afinal, como avaliar o que se crê ou descrê realmente? É uma idéia inteiramente subjetiva, e certamente jamais poderá ser provada a não ser pela própria palavra de cada um. Assim, seria arrogância dizer que não consigo voar porque não acredito realmente que eu possa fazer isso. Ora, alguém sabe mais sobre minhas idéias e crenças do que eu?

1 O experimento jamais foi reproduzido por cientistas independentes, e o Sr. Emoto até hoje não se manifestou para a proposta de James Randi, que lhe ofereceu um milhão de dólares para reproduzir o experimento com duplo-cego. Mais informações aqui: http://www.randi.org/jr/052303.html

3 Argumento que utiliza a premissa como fato, para então adequar convenientemente as conclusões.



Atualizado em ( 31-Mar-2008 )
 
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