Distorções quânticas PDF E-mail
Escrito por Delerue   
01-Mai-2006
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Distorções quânticas
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É preciso esclarecer também que a física quântica1 definitivamente não fala sobre o inconsciente e desejos humanos (inclusive, essa relação entre inconsciente e desejos, proposta por Freud, já é questionada há algum tempo pelos neurocientistas). Não há qualquer físico que realmente estude os átomos em laboratório afirmando que há uma relação direta entre essas coisas. São estudos completamente distintos, e até então não-correlacionáveis. As partículas atômicas não são nem mesmo compreendidas, quiçá relacionadas à nossa consciência, esta, igualmente muito pouco conhecida. Se há uma relação que os físicos propõem, é de que a consciência é 'apenas' uma reação bioquímica, naturalmente composta por átomos. Mas, trata-se aí igualmente de uma hipótese, sem qualquer evidência palpável. Portanto, parece um tanto absurdo qualquer afirmativa (ainda mais com a pretensão do filme) que se sustente em cima disso, e vá tão além, como foi o caso. Por fim, basta perguntar a qualquer físico de campo se faz sentido aplicar as leis newtonianas no mundo atômico ou vice-versa, para ver que não.

Num outro momento, o filme sugere que o mundo "que vemos" (a olho nu, entende-se) tem uma “matemática diferente” do mundo das células, que por sua vez tem "outra matemática” daquela aplicada aos átomos. Embora não se entenda muito bem o que o entrevistado quis dizer com “matemática diferente”, pode-se interpretar, na primeira relação, que a lógica do mundo “que vemos” é diferente do mundo das células, o que é uma afirmativa bem questionável, e que também não se desenvolve. Na segunda relação, parece que o filme acerta, mas ironicamente acaba contrariando o que vinha construindo até então, ao fazer constantes e diretas relações entre o macro e o micro. Além de pretensiosa e precipitada, essa idéia vai de encontro a uma hipótese que muitos cientistas têm em mente: a Teoria de Tudo, ou o que hoje se chama de Teoria das Cordas, que seria uma teoria capaz de unificar as leias do Universo, permitindo que se estude a física utilizando os mesmos princípios em qualquer meio, do macro ao micro. Para reforçar: trata-se de hipóteses, em princípio, logicamente possíveis, mas empiricamente nulas. A parcimônia cairia muito bem aqui. Mas não é o que se vê no filme. A frase "o nível de verdade mais profundo descoberto pela ciência e filosofia é a verdade fundamental da unidade" vem logo a seguir para ilustrar isso. A Ciência nem mesmo trabalha em cima de verdades, quanto mais 'profundas'. Como sabemos, o conhecimento científico é alicerçado em paradigmas2 (agora sim, o termo cunhado por Kuhn). Ademais, o que se quer dizer com 'verdade fundamental da unidade'? Pelo o que parece, trata-se de uma construção tão pomposa quanto incognoscível.

"Hoje entendo que não tenho consciência para saber o que [o conceito de deus] significa", diz um dos entrevistados. Sem entrar em qualquer mérito de crenças, vemos aqui outro Ad Ignorantiam. Para não estender muito, fica apenas a citação de um pensador chamado George Smith: “Quando dizem a um ateu que deus é incognoscível, ele pode interpretar esta alegação de dois modos. Ele pode supor, primeiramente, que o teísta obteve conhecimento acerca de um ser que, como ele próprio admite, não pode ser conhecido; ou, por outro lado, pode assumir que o teísta simplesmente não sabe do que está falando”. Em outro momento do filme ouvimos: "A ciência que mais se aproximou para explicar o ensinamento de Jesus de que uma semente era maior que o reino dos céus, foi a física quântica". Esse tipo de frase (também sem entrar nos méritos de crenças) é tão conveniente que não consegue esconder uma ingenuidade assombrosa. Não só mistura mitos e interpretações literais da Bíblia com a Ciência, como simplesmente não se desenvolve. Uma evasiva simplesmente tola, mesmo que tratasse de um fato inegável. Esse tipo de evasiva é continuamente alimentada pela entrevistada J.Z. Knight, que alega ser a reencarnação de um guerreiro falecido há 35 mil anos que vivia num continente que nem mesmo se sabe ter existido. Ela também apresenta a 'formação' mais questionável dentre os entrevistados: "Mestra e Fundadora da Escola Ramtha3 de Iluminação Canalizando J.Z. Knight" (instituição que afirmou, em 1992, que a AIDS era uma maneira da “mãe natureza” nos livrar do homossexualismo). J.Z. parece partir do curioso pressuposto que deus é uma teoria científica, enquanto qualquer estudante do Método Científico sabe que deus (seja o que for) não é passível de estudo, pois, nos termos do epistemólogo Karl Popper, não é falseável. Há um artigo de capa da revista Super Interessante de dezembro de 2005, intitulado "Deus existe?", que introduz bem essa noção.

1 Mais informações sobre essa complexa ciência aqui: http://plato.stanford.edu/entries/qm e aqui: http://hyperphysics.phy-astr.gsu.edu/hbase/quacon.html

3 Como esperado, o site oficial oferece uma gama realmente vasta de produtos à venda, incluindo CDs, videoteipes, livros, suplementos alimentares, consultas particulares pela bagatela de mil dólares a hora, etc. Entre as obras literárias expostas, é possível encontrar algumas com títulos curiosos, tais como “A cura de todos os cânceres” e “A cura do HIV/AIDS”. Mais informações aqui: http://www.ramtha.com/html/rse-store/books.stm



Atualizado em ( 31-Mar-2008 )
 
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