Distorções quânticas PDF E-mail
Escrito por Delerue   
01-Mai-2006
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Distorções quânticas
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A grande seqüência sobre as células sugere que essas pequenas entidades têm, além de consciência, uma moral, com decisões próprias e tudo mais. O filme não só ignora a discussão ainda atual do que exatamente é e o que forma a consciência, como faz associações que simplesmente não se justificam e nem se fundamentam. E é notável que durante todo o filme não haja sequer um contraponto. Todas as idéias e entrevistas direcionam o espectador para a mesma visão, onde a pseudociência tenta tornar o público crédulo de idéias que extrapolam até mesmo o bom senso. E tudo isso soa ainda mais curioso quando lemos, nas entrevistas com os diretores, que a intenção não era expor fatos, mas suscitar discussões. Será que eles não se deram conta de que no filme não há entrevistas e idéias céticas? Além disso, há erros graves. Afirmar, por exemplo, que o corpo humano é composto por 90% de água é distorcer o fato de que, na verdade, trata-se de 65%, em média. Em outro momento se diz que envelhecemos porque ocorre um processo chamado down-regulation (excesso continuado de um hormônio que reduz o número de receptores por célula), que ocorreria na divisão de células cerebrais. O filme parece esquecer que as células do cérebro, ao contrário das demais, não realizam divisão. Outro trecho nos informa (corretamente) que átomos, e, conseqüentemente, a matéria são basicamente espaços vazios. Então depois associa (sem qualquer tentativa de se explicar) que átomos são como pensamentos, concluindo que a matéria é feita inteiramente da nossa imaginação! O desfecho dessa insana seqüência não poderia ser mais questionável: "Se você não consegue controlar seu estado emocional, você [ou seja, suas células] está viciado naquilo". Então a ignorância é sempre um vício? Os roteiristas, convenhamos, poderiam ter feito por menos.

Contudo, há alguns lampejos de imparcialidade e bom senso, como no seguinte trecho: "Isso quer dizer que as emoções são coisas boas ou ruins [para os neurônios]? Não. Elas são desenhadas para reforçar quimicamente sua memória.". Assim, sem moralismo, o filme faz aqui uma constatação inteiramente verificável e desprovida de qualquer pretensão que caia no campo da pseudociência. Há um outro momento particularmente interessante que, embora fuja um pouco do tema do longa e também não seja nenhuma novidade (Tiros em Columbine, por exemplo, foca a mesma linha de pensamento), é sempre bem-vindo a um filme com ideais de auto-ajuda, especialmente porque são questões genuínas e extremamente pertinentes (como muitas durante o filme): "Pessoas ‘normais’ que acham sua vida entediante ou sem inspiração, são assim pois nunca tentaram ganhar conhecimento que as inspirassem. Estão tão hipnotizadas pelos seus ambientes, pela mídia, pela televisão, por pessoas que ditam ideais e parâmetros que todos lutam para imitar, mas que ninguém consegue alcançar em termos de aparência física, definições de beleza, valor, etc. As pessoas se rendem para essas ilusões e vivem acreditando nelas, na mediocridade". Outra passagem memorável é quando um dos entrevistados diz: "não existe ‘bom’ ou ‘mau’, pois dessa forma estamos julgando as coisas de forma superficial". De fato, essa frase é tão interessante que não parece estar no mesmo filme em que a todo momento atitudes ou supostas reações não-humanas são regidas por uma moral de aparente senso-comum, e permeadas com versões new age dos extremos tao (Yin e Yang).


Atualizado em ( 31-Mar-2008 )
 
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