Outro ponto muito questionável da obra, analisando-a como sétima arte, diz respeito ao desenvolvimento da protagonista ao longo do roteiro. É notável o fato de que ao longo do filme temos acesso a muitas entrevistas e informações que a protagonista não tem. Com exceção de algumas interações (como no caso do jogo de basquete ou do experimento do Sr. Emoto), boa parte do que vemos e sabemos a personagem Amanda não pode saber (a não ser que esteja num estado de transe ou de download frenético de dados). No entanto, é curioso notar que ela de fato sente todas as mudanças de acordo com o que nós, espectadores, vamos tendo acesso. Como isso se explica?
Em meio a tantos disparates, encontramos algo singelo e fundamentado: "Não tome as coisas como verdades absolutas. Teste para saber se é verdade". Pena que ironicamente o filme não só deixou de fazer isso, como também propôs como verdade proposições cientificamente inverificáveis (já mencionadas ao longo deste texto), dando, no entanto, uma roupagem aparentemente científica, o que é típico das pseudociências. A idéia, embora um tanto extrapolada, de que somos responsáveis por nossas vidas também é admirável, ainda mais em uma época onde muitos justificam suas decisões em função de religiões, políticos e/ou eventos supostamente paranormais, recusando-se a refletir sobre o mundo. A professora de inglês Elaine Showalter, da Universidade de Princeton, já alertou para este fenômeno. Segunda ela, há uma epidemia de histeria que varre o mundo, e especialmente os EUA, onde pessoas culpam fontes externas fantasiosas (abdução de alienígenas, vidas passadas, etc.), pois são incapazes de lidarem com seus próprios problemas1. O longa procura ainda ter um posicionamento elegante de inicialmente não informar quem são as pessoas entrevistadas, obrigando assim o espectador a avaliar cada um, sem julgamentos preconceituosos, mas posteriormente fundamentados em pesquisas. “Achamos que o importante é a mensagem, e não o mensageiro”, dizem os diretores no site oficial2. Entretanto, é inevitável que se perceba posteriormente que as idéias mais ponderadas (e as que o filme teve mais dificuldade de distorcer) são as feitas por pessoas com real formação científica e trabalhos de campo produzidos e reconhecidos pela comunidade científica, como é o caso de Andrew Newberg e David Albert, por exemplo. Esse último, inclusive, diz ter ficado muito surpreso após assistir a versão final do longa. “Fui editado de forma a abafar minha verdadeira visão sobre as questões discutidas no filme. Sou, de fato, profundamente contra a idéia de relacionar mecânica quântica com a consciência. Além do mais, expliquei tudo isso, durante muito tempo, diante da câmera e dos produtores do filme. Se eu soubesse que minhas idéias seriam radicalmente deturpadas, certamente não teria concordado em ser filmado”, disse ele3. Boa parte dos outros entrevistados é simpatizante ou dá aulas para a Escola Ramtha de Iluminação. E os demais são ou curiosos ou trabalham em outras áreas (teologia, filosofia, farmácia, etc.). O que os diretores (curiosamente também membros da Ramtha e patrocinadores exclusivos do filme) fizeram foi juntar tudo isso e distorcer de certa maneira que se encaixasse em suas idéias e crenças, mesmo que para isso eles tenham que incorrer em diversos disparates e incoerências. São esses mesmos diretores que, em uma recente entrevista4, afirmaram que tudo que não é palpável, como uma idéia ou a metafísica, por exemplo, é necessariamente “espiritual”. E concluem ainda que almas e reencarnação são fatos. Tudo isso faz parecer uma nova versão para as idéias de Fritjof Capra (surgidas com o livro O tao da física, em 1975) de misturar filosofia com física quântica (uma ciência extremamente complexa, controversa e ainda em fase de nascimento), no intuito de atingir o grande público, que ironicamente mal entende os conceitos newtonianos, muitíssimo mais simples e bem fundamentados.