Na crítica da jornalista Isabela Boscov, para a revista Veja, ela diz: “Passada a introdução, o filme descamba para a baboseira que, na verdade, quer advogar: um casamento promíscuo de junk science com filosofia new age e auto-ajuda. Pelo que se depreende de sua exposição confusa, os diretores e os pseudoluminares entrevistados por eles acreditam que o pensamento influi na realidade e no organismo do homem em nível molecular, e que basta dominar esse processo para ser feliz. Isso não é ciência, é superstição”. Na resenha da BBC, o autor afirma que o filme transforma, em um piscar de olhos, física em metafísica e teoria quântica em asneiras, e, além disso, parece estar inclinado a obter mais crédulos do que pensadores. “Evidentemente trata-se de propaganda de alguma seita disfarçada de filme sobre ciência. [...] Parte da ‘ideologia’ apresentada não passa de suposto plágio dos conceitos sobre percepção humana de acordo com os feiticeiros toltecas (povo que viveu no México pré-colombiano), e que já foram esmiuçados na inestimável obra do antropólogo Carlos Castaneda.”, diz Ricardo Feltrin, editor-chefe da Folha. Na breve crítica do Times, o autor diz que o filme lida com a física quântica de maneira nociva e manipuladora, arruinando qualquer credibilidade científica. “O filme é um atentado contra a ciência. É obviamente falho e completamente sem dados. Estou particularmente preocupado com a cena em que a protagonista lança longe seus remédios. Esta idéia new age, de que o pensamento positivo pode substituir a medicina, é especialmente perigosa”, diz Raj Persaud, psiquiatra no Maudsley Hospital, em Londres. Tim Evans, da Universidade de Londres, diz que o filme é perigoso porque explora o desejo genuíno das pessoas de entender as grandes questões da vida, mas dando às respostas uma falsa aparência científica. "Li [que] Goswami é ‘um dos físicos mais importantes da atualidade’. Absolutamente falso. A credibilidade da ciência é manipulada [durante o filme] para convencer as pessoas da importância das novas revelações e dos novos ‘profetas’. O sucesso do esoterismo pseudocientífico é reflexo da difícil condição humana, da dificuldade de sempre aceitar que somos seres limitados, com vidas finitas, num Universo que nada liga para nossa existência.", alerta o brasileiro Marcelo Gleiser, autor de A dança do universo e professor de Física teórica no Dartmouth College, em Hanover. Segundo o sociólogo Francisco Rüdiger, autor de Literatura de Auto-Ajuda e Individualismo, esse tipo de texto não se destina unicamente à leitura e reflexão, pois não só tem grande poder de persuasão, por falar numa linguagem aparentemente palpável, como também pressupõe um cunho prático, de que o leitor passará da leitura à ação. Eis o maior perigo.
O que fica realmente difícil de entender é como filmes como esse fazem tanto sucesso e apagam a honesta e admirável divulgação científica pregada por Carl Sagan (com tantos livros, a série Cosmos e filmes inspirados em suas obras, como Contato (Contact, EUA, 1997)), Richard Dawkins (também com uma série, lançada esse ano, e livros deliciosamente bem-escritos e voltados à divulgação científica para leigos, mas sem jamais abdicar de um senso crítico bem incisivo), Steven Pinker, António Damásio, entre outros. Ou ainda, séries extremamente didáticas e bem feitas, como Space (da BBC), The Elegant Universe (da PBS) e Maravilhas Modernas (do History Channel). Para não citar os inúmeros sites que divulgam conhecimentos científicos de fácil acesso, como é o caso do sensacional How Stuff Works1, ou de revistas como a Scientific American (com edição em português) e suas vertentes, como Viver Mente&Cérebro. Parece que estamos estranhamente fadados a ter como suposta referência científica na mídia filmes como esse (que já conta com uma continuação, intitulada What the Bleep!?: Down the Rabbit Hole2, produzida esse ano, a qual o distorcido físico Albert diz também se tratar de um grande e insano aglomerado de erros científicos3) e Ponto de Mutação (Mindwalk, EUA, 1990, inspirado no livro homônimo de Fritjof Capra), divulgadores, como Flávio Calazans e André Mauro, e revistas que, com raras exceções, são constantes agressões à Ciência, como a Super Interessante e Galileu. E ainda mais triste é constatar que a maior parte do público leigo e dos simpatizantes com acesso a esse tipo de material enganoso julga que o ônus da prova não é mais desses pseudocientistas, mas de quem os contrariar. Como se a exposição desses charlatões fosse tida como verdade até que se prove o contrário. E tudo isso ironicamente em nome da Ciência.