Experimente perguntar a conhecidos seus se eles já ouviram falar em "mensagem subliminar". A maioria certamente dirá um entusiasmado "sim". Dos temas mais recorrentes em mesas de bar, comunidades virtuais e aulas de Psicologia, Propaganda e Marketing, as "mensagens subliminares" costumam ser divulgadas de uma maneira realmente impressionante. O que costumamos ouvir é que elas são inseridas propositalmente em propagandas, filmes, músicas e discursos, de forma que ninguém as perceba conscientemente, porém, por trás disso, dizem, há um enorme poder de persuasão.
Eis alguns exemplos:
1 - Surge a oportunidade de um novo emprego, porém ele exige o conhecimento de línguas estrangeiras que você nem mesmo sabe pronunciar as vogais. Quem sabe a solução seja um curso subliminar expresso, onde você aprende ouvindo fitas durante as noites de sono;
2 - Certo dia, conversando tranqüilamente com seu amigo, você sem querer começa a atacá-lo com ofensas e xingamentos, mesmo sem haver qualquer motivo para isso. Talvez você tenha sido influenciado por mensagens ocultas nas músicas que tem escutado;
3 - Você está assistindo a um filme no cinema, e de repente surge um desejo incontrolável de comer pipoca, mesmo estando numa rígida dieta. A idéia é que você foi persuadido pela frase "coma pipoca", inserida num dos 24 quadros da projeção. Será que existem motivos para acreditarmos nisso tudo?
No Brasil, as referências sobre o assunto são o professor José Vicente Dias, fundador da ONG Mensagem Subliminar e autor do livro "Mensagem Subliminar", e o PhD pela Universidade de São Paulo, doutor Flávio Calazans, autor do livro "Propaganda Subliminar Multimídia". Apesar de não terem qualquer vínculo, ambos definem o termo da mesma forma. "Subliminares são as mensagens que nos são enviadas dissimuladamente, ocultas, abaixo dos limites da nossa percepção consciente (medidos pela Ergonomia) e que vão influenciar nossas escolhas, atitudes, motivar a tomada de decisões posteriores", diz Calazans. Vicente afirma que o primeiro relato de uma experiência realizada no intuito de comprovar a existência e eficácia das tais mensagens ocorreu em 1956, enquanto Calazans inicialmente afirma que o mesmo tenha ocorrido em 1959. "Quando o publicitário Jim Vicary coloca um taquicoscópio [sic] (projetor de slides, nome cuja origem vem de táquios = velozes, como o estroboscópio anteriormente criado) no filme Picnic, estrelado por Kim Novak, projetando frases (como 'drink Coke') numa velocidade de 1/3000 de segundo, imperceptíveis pela consciência, aumentando assim as vendas do refrigerante", explica Calazans. É curioso notar que ambas as datas citadas por eles não são encontradas em nenhuma outra referência confiável do assunto. Como é possível notar aqui, aqui, aqui e até mesmo no artigo intitulado "A segunda inteligência", publicado pela revista Super Interessante (05/1999), o ano do experimento data de 1957. O mais espantoso, porém, é o aparente esquecimento de informações das mais importantes para a compreensão do assunto.
No artigo intitulado "O meme subliminar - parte 1 O experimento vicarista", Calazans alega que o experimento de James Vicary (agora curiosamente datado de 1956) não é uma lenda. Ele parece omitir não só a ausência de relatórios formais, necessários para avaliar cientificamente as alegações, como também o que o próprio Vicary disse numa entrevista apresentada no artigo "Subliminal Advertising -- Today It's Just Historic Flashback for Researcher Vicary", publicado pela revista Advertising Age, em 17 de setembro de 1962. "Quando foi desafiado a repetir seu teste pelo presidente da Psychological Corporation, Dr. Henry Link, Vicary não conseguiu apresentar nenhum aumento significativo nas vendas de pipoca ou Coca-Cola. Vicary então confessou que havia falsificado os dados de seu primeiro experimento" (http://www.snopes.com/business/hidden/popcorn.asp). Apesar da escassa cobertura dada à confissão de Vicary, a euforia em cima do tema amenizou consideravelmente. Quando então, em 1973, o canadense Wilson Bryan Key aparece com o livro "Subliminal Seduction", afirmando que as "técnicas subliminares" não estão apenas em filmes e na televisão, mas também na propaganda de diversos produtos. Introduzindo polêmicas acusações de que a palavra "sex" estaria oculta em inúmeros lugares, como em biscoitos Ritz, ou implícita em propagandas de bebidas, Key consegue toda a atenção que o tema jamais teve (mais informações aqui e aqui). Aliado a isso, ele aproveita o momento de grande desconfiança dos americanos em relação ao governo, empresas e instituições, para então sugerir que estes estariam numa conspiração com o intuito de controlar nossas mentes através do uso de "mensagens subliminares" (mais informações aqui e aqui). Mesmo que as afirmações de Key não tenham qualquer evidência comprovada, não ultrapassando assim o campo da fantasia e da imaginação, podemos ver o reflexo de suas idéias em praticamente tudo o que se tem hoje sobre o assunto. "Ora, se há data local do evento registrado, não se pode atribuir a pecha de 'lenda urbana' (...). Junto a este boato cabe recordar que GALILEU GALILEI foi levado ao tribunal da inquisição e coagido e pressionado a negar suas pesquisas (...), mesmo sabendo estar correto", sugere Calazans em seu artigo, claramente inspirado no discurso conspirativo de Key. Calazans parece contrariar não só todas as referências científicas que temos, como sustentar a idéia de conluio com um exemplo inteiramente descontextualizado. "Futuras pesquisas poderão identificar se, como no antecedente histórico de retratação do caso de Galileu, interesses de multinacionais em abafar o caso e desinformar a opinião pública poderiam ter pressionado ou coagido o publicitário a desmentir-se, seria anti-científico acveitar [sic] tudo cegamente, fruto de maldade induzindo os leitores em erro ou de ignorância crassa", finaliza ele.
Além de não provar sua idéia conspirativa, ignorar o fato de que Galileu vivia diante do rígido, mórbido e extinto sistema católico da Inquisição, Calazans tenta ainda ocultar tantas outras fracassadas tentativas de reprodução do experimento de Vicary. "No intuito de resolver a questão, a Comissão Federal de Comunicações (FCC) fez, em janeiro de 1958, uma demonstração limitada aos governantes e à mídia. Na sessão, a frase 'coma pipoca' foi piscada rapidamente de cinco em cinco segundos durante um programa de televisão. (...). O único relato [positivo] foi do senador Charles E. Potter: 'Acho que quero um cachorro-quente'." (http://www.stayfreemagazine.org/archives/22/subliminal-advertising.html). "Numa das mais interessantes tentativas de replicar [o experimento de Vicary], a [emissora] 'Canadian Broadcast Corporation', em 1958, subliminarmente inseriu a mensagem 'ligue agora' 352 vezes, durante uma noite de domingo, no programa 'Close-up'. O número de telefonemas não aumentou durante esse período. Ninguém ligou para a emissora. Quando pediram para o público adivinhar a mensagem, receberam cerca de 500 cartas, mas nenhuma com a resposta correta. No entanto, praticamente metade das pessoas disse estar com fome ou sede durante o programa. Ao que tudo indica, eles adivinharam (incorretamente) que a mensagem tinha como intenção levá-los a comer ou beber." (http://www.csicop.org/si/9204/subliminal-persuasion.html).
Com tantos erros de raciocínio, ausência de fontes, provas e bom senso, Calazans nos deixa sem respostas para algumas questões. Se as tais "mensagens subliminares" existem e funcionam, como costuma ser dito, e há uma conspiração tentando escondê-las da população, então por que estou aqui escrevendo sobre esse assunto? Por que existem tantos autores e sites defendendo a existência? Por que ainda não tiraram do ar os principais portais sobre o assunto? Por que o professor Vicente e o doutor Calazans são mais populares que qualquer crítico do assunto? Ou por que ainda permitem que Vicente e Calazans apareçam na televisão, publiquem livros, artigos, criem portais e postem em inúmeras comunidades da internet, incluindo aqui? Se há mesmo uma conspiração, por que não existem "mensagens subliminares" que tentem fazer com que não pensemos sobre elas? Por que não são usadas pelo governo para evitar fraudes, roubos e demais infrações da população? Por que a esmagadora maioria das pessoas acredita nelas? No mais, é preciso lembrar que, ao realizar uma pesquisa sobre o assunto na internet, iremos encontrar inúmeros sites que explicam o mesmo que Calazans, Vicente ou qualquer outro defensor deste mito, mas dificilmente encontraremos uma abordagem imparcial, fundamentada em estudos científicos verificáveis. Ademais, é notável como o universo das "mensagens subliminares" movimenta rios de dinheiro com palestras, entrevistas, artigos, livros, fitas e CDs de auto-ajuda, sites, programas etc., etc., ao passo que nenhum divulgador da verdadeira ciência explora tanto o próprio nome e os bolsos do público alvo.
É preciso também salientar os inúmeros encontros virtuais com Calazans, onde perguntas direcionadas a ele jamais são respondidas, mas desviadas com uma autopromoção tão evidente quanto bizarra, como é possível ver em inúmeras mensagens aqui, aqui e especialmente na sua lista de discussão. Após a publicação do artigo "Mensagens subliminares", publicado pelo respeitado Projeto Ockham (site nacional onde, pela primeira vez, tratou-se o assunto com enfoque cético-científico), Calazans entra em contato com o então autor Widson Porto Reis. "Recebemos vários e-mails do Professor protestando contra o artigo e contra a classificação do tema como pseudociência. No entanto foi decepcionante ver que, ao contrário ao que se esperaria de um Doutor em Ciências, Calazans não se interessou em rebater os argumentos científicos de nosso artigo. Também não aceitou nosso convite para debater o tema aqui no fórum ou em outro local qualquer", afirma Widson. Não bastante, Calazans parece estar envolvido com a criação de pseudônimos para, assim, baixar o nível e - estranhamente - promover-se, como foi sugerido aqui e aqui. Além disso, constam em seu website seções muito duvidosas, como essa, essa e essa. A respeito da cientificidade de Calazans, sabe-se que sua bibliografia é composta de 43 referências. "Dos 43 trabalhos, 28 são dele mesmo. Dos 15 restantes, 2 são os livros populares de Wilson Key (completamente desacreditados na comunidade científica), os outros -- praticamente todos -- são relacionados à mídia e publicidade de forma geral, sem nenhuma ligação direta com as mensagens subliminares", diz Widson. Apesar do professor Vicente não ser tão orgulhoso de seus próprios trabalhos, a ponto de citar as próprias obras em sua bibliografia, ele não parece contar com melhores referências. Além de possuir pouquíssimas fontes de pesquisa, fundamentar suas idéias também em Key, ele cita como referência de estudo ao assunto a Bíblia, sugerindo forçadamente que a origem do tema remonta àquela época. Por fim, não consta que tanto ele, quanto Calazans, tenham qualquer experimento controlado e reconhecido pela comunidade científica.
Com tudo isso, é estranho notar que ainda hoje tantas pessoas dêem crédito suficiente a ambos a ponto destes freqüentarem salas de aula como professores, enquanto todas as informações estão disponíveis ao público na Internet. Escrito e assinado por Calazans (em alguma de suas múltiplas identidades) encontramos palavrões, baixarias, pornografia, pseudônimos, autopromoção, textos vazios e numerosos etc., etc. Tudo isso escudado somente por um título de doutor, sem nenhuma idéia, argumentação, referência científica, nada mesmo. E numa tentativa de despistar tais fatos, Calazans decide escrever artigos de argumentação duvidosa, como esse, onde ele tenta pôr por água abaixo o princípio da Navalha de Ockham, ferramenta-base para toda e qualquer Ciência. Ou aqui, onde ele alega, com uma aparente ironia - e um péssimo português - que a receita do sucesso está no ataque às mensagens subliminares. Neste último, Calazans faz apelos à autoridade ("Ora, o tema científico dos subliminares tem Tese de Doutorado defendida na USP...") e inversões de seu próprio discurso e posicionamento ("Alguns de meus supostos críticos parecem desejar promover-se atacando-me cegamente mais do que dialogar e construir ciência..."). Com um linguajar nada científico, recheado de contradições e pouco digno de um professor, a dupla Vicente e Calazans acaba atirando em seu próprio pé, mostrando assim, que não está aqui para nos ensinar, mas para nos confundir e ludibriar.
E se parece que o tema é tratado desta maneira apenas aqui no Brasil, é preciso lembrar não só do já citado canadense Wilson Bryan Key, que, com quase dez livros publicados, é referência internacional no assunto até hoje. O tema conta também com o espanhol Joan Ferrés, autor de "Televisão Subliminar", os americanos Kurt Mortensen e Robert Allen, autores de "How 10% of the People Get 90% of the Pie: Get Your Share Using Subliminal Persuasion Techniques" e o americano Vance Packard, autor do best-seller "The Hidden Persuaders". Este último, conhecido por popularizar o termo "mensagem subliminar", justamente ao relatar pela primeira vez o polêmico experimento de Vicary, em 1957. Dessa forma, não fica difícil perceber que as origens acabam sendo as mesmas, e assim notamos que uma assumida fraude gera um polêmico e conspirador autor, vangloriado por uma multidão, que por sua vez gera outros autores, que então abordam o assunto da maneira aqui exposta.
Mas os problemas não param por aí. A espantosa maioria desses autores considera como "mensagem subliminar" um pacote que inclui mensagens subjetivas, objetivas, subentendidas, ocultas, implícitas e até mesmo explícitas (mais aqui), todas com uma suposta poderosa capacidade de persuasão. Imagens que possuem dupla interpretação (mais aqui), ou são manipuladas a fim de mostrar uma outra coisa, não podem ser consideradas subliminares, pois são percebidas pelo consciente. Ainda existem aquelas que não são nada além da fértil imaginação de quem deseja ver sexo (uma lista desses exemplos é encontrada aqui) e apelo ao demônio (mais aqui e - inacreditavelmente - aqui) em praticamente qualquer lugar. É preciso enfatizar que mensagens subliminares nada têm a ver com propagandas em novelas e filmes, por exemplo, onde é possível notar uma garrafa de cerveja em cima da mesa com o rótulo voltado para câmera, uma pasta de dente que o personagem utiliza ou até mesmo o chip do computador que ele elogia; para isso dá-se o nome de merchandising. Os publicitários, e, conseqüentemente, o público, parecem ainda confundir os termos, mesclando marketing de associação (roupas da moda = felicidade, carros esportivos = mulheres atraentes etc.) com um suposto marketing subliminar. Em função disso, as discussões acabam perdendo o sentido (há um bom exemplo desta confusão aqui). Resumindo: imagens, sons e idéias sugeridas nas entrelinhas, de forma sutil ou periférica, não são subliminares por definição.
Das mais famosas - e esclarecidas - acusações de subliminalidade, destacam-se os casos da Disney (mais aqui), governo Bush, músicas e discursos reversos e até a emissora MTV. Nesse último escândalo, cabe lembrar que a real acusação foi de que a emissora estaria exibindo imagens de sadomasoquismo a telespectadores incautos, e não propriamente algo subliminar. Apesar de falsamente sugerido, não há no Brasil qualquer lei que trate diretamente do assunto. A ONG CONAR é o órgão que "visa promover a liberdade de expressão publicitária e defender as prerrogativas constitucionais da propaganda comercial". No artigo 29 da ONG consta: "Este Código não se ocupa da chamada 'propaganda subliminar', por não se tratar de técnica comprovada, jamais detectada de forma juridicamente inconteste. São condenadas, no entanto, quaisquer tentativas destinadas a produzir efeitos 'subliminares' em publicidade ou propaganda". Pelo o que parece, o CONAR apresenta uma posição incoerente, pois pretende punir algo que nem ele e nem a lei reconhecem como infração. No entanto, sua condição de ONG funciona apenas como intermediário entre quem denuncia e quem efetivamente avalia essas denúncias. A base dessas avaliações é feita pelo Código Brasileiro de Auto-Regulamentação Publicitária, que nem mesmo cita a palavra "subliminar". Nos Estados Unidos não é diferente. "A Comissão Federal de Comunicações não possui um regulamento proibindo mensagens subliminares, pois as considera ineficientes", diz um artigo publicado pela CNN. No entanto, ainda há quem afirme ter certeza do uso da "técnica subliminar" na propaganda, ignorando não só toda a longa história deste mito, mas também relatos (mais aqui) de quem faz propaganda.
Apesar de tanta fumaça e mistério envolta desse tema, a psicologia moderna não nega a possibilidade de que alguns estímulos subliminares possam, em determinadas situações, serem captados. Alguns cientistas vêm tentando estudar o assunto com as ferramentas da verdadeira ciência, e, embora muitos aspectos ainda estejam em aberto, não há até o momento qualquer evidência de que mensagens de caráter subliminar, ou seja, abaixo do limiar de percepção, possam causar efeitos persuasivos. "O inconsciente não pode levar o consciente a fazer algo que ele julgue errado ou que realmente não queira", diz o psiquiatra Henrique Schützer Del Nero, da Universidade de São Paulo. "O inconsciente como um depósito de complexas decisões, desejos, preferências etc., é, sem dúvida, o principal alicerce [para a crença nas 'mensagens subliminares']. No entanto, esse inconsciente 'esperto', contido na visão popular da psicologia, tem sido rejeitado pelas modernas pesquisas cognitivas", reforçam os psicólogos Birgit Mayer e Harald Merckelbach, no lúcido e amplo artigo intitulado "Unconscious Processes, Subliminal Stimulation, and Anxiety", publicado pela Clinical Psychology Review.
Numa experiência realizada pelo neurologista francês Stanislas Dehaene, foi pedido a um grupo de doze voluntários que olhasse para a tela de um computador. Eles tinham que informar se um número apresentado na tela era maior ou menor que cinco. Dependendo da resposta, apertavam botões ou com a mão direita ou com a esquerda. Porém, pouco antes de verem o número era mostrado um outro, por cerca de 50 milissegundos, o suficiente para se crer que os olhos não conseguiriam captar. Sempre que o flash mostrava um algarismo contraditório com a imagem principal, o voluntário se atrapalhava e demorava para apertar o botão correto. Através da observação de eletroencefalograma, concluiu-se que o cérebro não só reconhecia as informações de alta velocidade, como também as interpretava. Porém, alguns cientistas já apresentaram algumas críticas e questionamentos com relação a estudos como esse, alegando que alguns fatores teóricos, metodológicos e até mesmo de ordem prática acabam comprometendo o estudo de percepções subliminares.
"Há uma faixa entre o chamado limiar subjetivo e o limiar objetivo; dentro desta faixa um estímulo é percebido, mas sem que o observador tenha consciência dele. Acima do limite subjetivo o estímulo é percebido conscientemente pelo observador, sendo chamado de supraliminar. Já abaixo do limite objetivo não há nenhum traço de percepção", diz o artigo "Mensagens subliminares", do Projeto Ockham. Ou seja, na teoria não é tão difícil definir tais limites. O problema surge nos testes reais em laboratório. Como estamos lidando com a percepção subjetiva de cada um, dependemos em parte dos relatos, e a abrangência acaba tornando os experimentos pouco precisos. Os psicólogos Stephen Benoit e Roger Thomas relataram no artigo "The influence of expectancy in subliminal perception experiments", publicado pelo "The Journal of General Psychology", que resultados positivos de percepção subliminar eram maiores quando as pessoas testadas eram previamente informadas do que seriam expostas, sugerindo assim, que a expectativa gerada pela experiência pode alterar seus resultados. Outro ponto relevante a ser lembrado é a percepção de um estímulo não-identificado. Ou seja, quando expostos a estímulos visuais de alta velocidade, muitos reportam terem percebido algo anormal, porém não conseguem definir o que seria. Tais relatos reforçam ainda mais o caráter de contaminação aos quais estão sujeitos os experimentos. No artigo "Individual differences in the selective processing of threatening information, and emotional responses to a stressful life event", publicado pelo "Behaviour Research and Therapy", os psicólogos Colin MacLeod e Rosemary Hagan sugerem um outro problema metodológico. Será que um estímulo X é ao mesmo tempo subliminar para dois ou mais indivíduos? Segundo eles, ainda não temos como saber. E no caso de um estímulo, a princípio subliminar, percebido, temos como ter certeza que ele foi captado pelo consciente ou pelo inconsciente? Também não. Por esses e outros motivos a psicologia não encerrou a questão da percepção subliminar. No entanto, há um consenso entre os cientistas de que esse tipo de percepção de sinais muito rápidos, sejam eles visuais ou sonoros, fica registrada no cérebro por um período extremamente curto. "A marca deixada por esses tipos de sinais dura menos de 1 segundo, desaparecendo logo em seguida", afirma o psicólogo Anthony Greenwald, da Universidade de Washington.
Assim, estritamente falando, podemos afirmar que existem mensagens subliminares, porém, bem distintas das que são ensinadas em universidades e povoam a crença popular. Contudo, se o leitor ainda tem uma breve desconfiança de que o mito das "mensagens subliminares" possui algum caráter realmente científico, fica então uma pergunta: o que mais seria necessário para concluir que tudo isso não passa de uma das mais bem difundidas lendas urbanas da história? Ou, colocando o ônus no devido lugar: o que seria necessário para acreditar no que dizem os filhos de Vicary? |