Os Frágeis Alicerces Da Monogamia PDF E-mail
Escrito por Delerue   
01-Abr-2004
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Os Frágeis Alicerces Da Monogamia
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Embora haja algumas controvérsias a respeito do sétimo mandamento bíblico, em que alguns acreditam constar 'não adulterarás', e outros que 'não pecarás contra a castidade', é sabido que o Rei Salomão teve inúmeras esposas e concubinas (Reis 11:3), assim como o Rei Davi (Samuel 5:13) e Jacó (Gênesis 29). Ao que parece, o adultério, tal como compreendido por Moisés, referia-se apenas à mulher casada, e jamais ao homem casado. Segundo L. William Countryman, professor sobre o Novo Testamento na Escola Church Divinity, em trecho algum a Bíblia mostra a monogamia como um padrão claro e explícito. Eugene Hillman, autor de As várias moradas: católicos diante do pluralismo religioso, endossa a afirmação de Countryman ao dizer que não consta no Novo Testamento qualquer orientação expressa de que o casamento deva ser monogâmico. O Alcorão, embora com algumas restrições, também não se opõe à prática da poligamia.

No artigo intitulado Vos declaro marido e mulher, publicado pela revista Super Interessante (05/1996), os autores lembram ainda que, ao reconhecer o significado político do casamento, a Igreja instituiu, em meados do século IX, a cerimônia religiosa, a qual não vigorou de imediato. Até então ela não admitia que no casamento pudesse haver um bem positivo ou que o afeto entre o marido e a mulher fosse belo e desejável. Resultado: o casamento era visto como algo repugnante e poluído, definindo até mesmo como superior quem optava por não casar. Somente a partir de 1439, depois que o Concílio de Florença transformou o matrimônio no sétimo sacramento, o papa Eugênio IV conseguiu impor sua autoridade. O casamento tornou-se então indissolúvel – “o que Deus une, o homem não separa” –, e a poligamia e o concubinato, interditados. Regras que prevalecem até os dias atuais. Graças à consideração do casamento como sacramento e do adultério como pecado, a Igreja passava a assumir a responsabilidade pela criação do sentimento de imperdoabilidade e de culpa – no caso do rompimento do contrato de fidelidade – entre os cônjuges. A ela é igualmente lícito atribuir-se a intocabilidade deste mito, que é a monogamia.

 

Contrariando o que comumente se diz, a poligamia é consideravelmente mais presente do que a monogamia. Recentes pesquisas antropológicas, efetuadas em universidades americanas, indicam que numa lista dos 250 povos mais importantes, estudados no início do século passado, nada menos que 193 adotavam a poligamia. Considerando que o discurso predominante defende o contrato de fidelidade, a conclusão não menos óbvia é de que a monogamia é o discurso da hipocrisia.

 

Atualmente a monogamia pode ser a regra, mas não é a prática corrente – nem mesmo para os animais. Recorrendo à mesma tecnologia do DNA utilizada nos tribunais, os biólogos hoje são capazes de determinar com absoluta segurança a paternidade nos animais. Os resultados têm sido surpreendentes: mesmo entre as espécies anteriormente consideradas monogâmicas – a esmagadora minoria –, enganar o parceiro é uma prática comum, e para ambos os sexos. É o que dizem David P. Barash e Judith Eve Lipton, autores do livro O mito da monogamia: fidelidade e infidelidade em animais e pessoas. Segundo eles, novas pesquisas científicas permitiram alcançar respostas definitivas para algumas perguntas, fazendo concluir que, ao contrário do que se pensa, o desejo sexual por múltiplos parceiros é natural.

 

Do ponto de vista estritamente social, os pilares da monogamia surgem e se mantém a partir da idéia da importância da família, da sua manutenção como uma entidade íntegra e harmoniosa. Segundo Engels, a monogamia teria sido "a primeira forma de família que não se baseava em condições naturais, mas econômicas e, em concreto, no triunfo da propriedade privada sobre a propriedade comum primitiva, originada espontaneamente”. Fato é que muitos casamentos já esgotados, com a data de validade vencida há muito tempo, ainda perduram por anos. Além do desejo de se manter a integridade familiar, ainda existe o fator econômico, com os seus imperativos e exigências peculiares. A psicóloga Regina Navarro Lins, em seu livro Na cabeceira da cama, ressalta que a idéia do casamento ‘até que a morte os separe’ hoje não possui nenhum fundamento, já que as pessoas até a Revolução Industrial, no final do século XVIII, moravam predominantemente no campo, o que as fazia sentir afetivamente amparadas. Nessa época, os casamentos aconteciam por razões econômicas e políticas, e por essa razão é que duravam a vida toda.

- Estudo reforçado pela Ethnographic Atlas. Mais informações aqui: http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/1974/artigo59608-1.htm 



Atualizado em ( 31-Mar-2008 )
 
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