|
Página 3 de 12 A autora ainda lembra que não havendo romance nem expectativas de satisfação sexual, não havia decepções, e ninguém pensava em se separar. Apesar de sua herança pouco ética e bastante discutível, a monogamia mantém-se alicerçada, até os tempos atuais, no sentimento de posse e seu sucedâneo mais comum e doloroso, o ciúme. Trata-se, sem dúvida, de um estado emocional bastante complexo, que leva um indivíduo a querer se sentir único e especial numa relação. Há também a idéia de sacrifício pelo outro, o que certamente é um resquício da cultura da culpa, que prega que a virtude é o sofrimento. E assim é definido o amor romântico, que, com mais de 800 anos, certamente é uma das propagandas mais bem difundidas e sucedidas da História. Seu carro-chefe, conhecido mundialmente, é a história de amor entre Romeu e Julieta, escrita pelo dramaturgo inglês William Shakespeare. No término da história, os dois protagonistas preferem morrer a viver um sem o outro. Para completar, a partir da década de 40 o amor romântico é fortemente alimentado por Hollywood. “Existe uma campanha, incorporada por todos os meios de comunicação, que procura nos convencer de que só é possível ser feliz vivendo um romance, que traz a ilusão do amor verdadeiro. Tão grande quanto o desejo de vivê-lo. Por isso, poucos suportam ouvir que, apesar de toda a magia prometida, ele não passa de uma mentira. Sem contar que traz mais tristeza do que alegria, além de muito sofrimento”, observa Regina Lins. Entre as características deste mito, ela questiona a veracidade de pontos como: só é possível amar uma pessoa de cada vez; o amado é a única fonte de interesse e desejo sexual do outro, e esse desejo dura a vida toda; qualquer atividade só tem graça se a pessoa amada estiver presente; todos devem encontrar um dia a pessoa certa; o amor verdadeiro é completo e insubstituível. Atrelado a este sentimento de posse, vem o medo de descobrir que não se é único e insubstituível. O webmaster do site Poliamor Brasil, Mario Mazzini, também médico e escritor, observa que “a monogamia é muito baseada no ciúme, que é (...) fruto da insegurança, do medo de perder um objeto afetivo que é visto como essencial à sobrevivência. Crianças sentem ciúme dos irmãos, do pai ou da mãe, porque são incapazes de viver sem o apoio dos pais. Adultos autônomos não teriam porque ter esse sentimento, a menos que mantenham uma insegurança de nível infantil. A idéia de uma relação monogâmica exclusiva é uma forma de satisfazer o desejo infantil de ser o dono exclusivo(...), e assim evitar o medo da perda gerado pela insegurança”. Tal insegurança, representada como comportamento de defesa na prática da monogamia, visa também diminuir as chances de comparações, constatações e perdas que supostamente viessem a ocorrer caso o contrato de fidelidade não existisse, e, por conseqüência, houvesse liberdade e espaço para a poligamia. A respeito desse eventual aumento das chances de perda do parceiro, caso ele não seja adepto da monogamia, Mazzini lembra que “o risco está presente sempre em qualquer relação, mesmo que não estejamos conscientes dele. O fato de alguém ter liberdade para ter relações extraconjugais não aumenta necessariamente este risco, podendo até mesmo diminuí-lo. Uma das causas da deterioração das relações conjugais é justamente a sensação de garantia de sua manutenção; em função disso os cônjuges acabam por não se esforçar muito para manter o interesse do outro na relação”. Ele ressalta ainda um ponto interessante, e comumente bastante deturpado, quando o assunto é abordado: “Já vimos através de opiniões de outras pessoas – inclusive através de artigos e pesquisas sobre a motivação dos casos
|