|
Página 4 de 12 extraconjugais – que, muito freqüentemente, o que motiva as pessoas a terem casos extraconjugais é a insatisfação com o atual cônjuge. Ou seja, a insatisfação com o cônjuge nesses casos não se instala a partir da relação extraconjugal, mas a precede. O que não faz sentido é terminar um casamento por causa de um relacionamento extra se os dois continuam se amando”. E finalmente conclui que “o fato de os cônjuges se permitirem ter relações extraconjugais, enquanto as coisas ainda estão bem entre eles, na verdade favorece o auto-conhecimento e o conhecimento do outro, (...) mas se acontecer de uma das partes preferir terminar a relação atual e partir para uma outra relação, é porque esta relação já não era suficientemente satisfatória. E, se assim for, isto ocorreria de qualquer forma, com ou sem liberdade para relacionamentos extraconjugais.” Como já constatado, a atração física e o desejo sexual por alguém além do parceiro é um instinto comum e inegável entre os animais – o que nos inclui, claro. Com o ser humano, no entanto, essa história pode mudar. Na maioria das culturas atuais prevalece o desejo explícito de que o parceiro seja monogâmico (pelos motivos já explicados acima), e a tentativa desesperada de manter uma coerência nesse aspecto, tornando assim, mesmo que contra o próprio instinto, toda a relação monogâmica. Segundo a antropóloga americana Margaret Mead, “a monogamia é o mais difícil dos arranjos maritais entre humanos”. Não é de se admirar, portanto, a inevitabilidade do conflito gerado entre o que é certo socialmente e aquilo que se deseja intimamente (tal questão é muito bem tratada nos filmes De Olhos Bem Fechados e Closer). Em larga medida, trata-se de um conflito não resolvido. E na sua irresolução, pode surgir o que comumente chama-se de “traição”. Dá-se o nome de “traição” quando ocorre a ruptura do contrato de fidelidade de uma ou ambas as partes em um relacionamento que envolva o desejo sexual. Essa atitude põe por água abaixo o conceito de monogamia previamente ‘combinado’ ou, o que é mais comum, implícito nos relacionamentos atuais. Ela possui algumas peculiaridades muitíssimo curiosas, desde a relação entre sua existência e as conseqüências práticas, até a aparente imperdoabilidade de quem se sente “traído”. Quando somos roubados, não importa se somos avisados, o roubo não perde sua característica por causa disso. Quando perdemos um ente querido, a própria ausência dele já nos traduz todo o sentimento de perda que a situação envolve; talvez aconteça de sentirmos essa perda ao saber, mas isso é apenas o adiantamento do sentimento de perda que certa hora chegará por vias práticas, afinal de contas, se você não sente falta de alguém, perder essa pessoa não será algo muito relevante em sua vida. Até mesmo quando somos insultados há um peso prático, pois a atitude apenas traduz a agressividade da situação. Podemos ainda citar a própria "traição", que, acarretando numa diminuição da dedicação oferecida pelo “parceiro-traidor”, já apresenta um motivo prático e auto-suficiente para sua negação, não sendo necessária assim sua afirmação verbal. Para o monógamo, ao que tudo indica, o que importa é o simples – e irrelevante – saber do que ele chama de "traição" (mais abaixo há uma outra visão deste termo). Mas essa atitude não gera obrigatoriamente um efeito prático, nem mesmo de forma indireta. O rompimento não necessita de uma causa prática, mas unicamente ideal. Ou seja, a “traição”, ocorrendo sem que seja verbalizada, não é (necessariamente) percebida pelo parceiro “traído” – o então famoso “o que os olhos não vêem, o coração não sente”. Curiosamente
|