Os Frágeis Alicerces Da Monogamia PDF E-mail
Escrito por Delerue   
01-Abr-2004
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Os Frágeis Alicerces Da Monogamia
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sua vida, em função da notícia de que durante esse período foi "traído". Sim, é uma opção. Cada um tem o direito de optar pelo o que bem entender, ou melhor, bem preferir. E o ser humano, mais do que qualquer outro animal, tem esse poder de escolha. Mas ele não é só escolha, pois muitas de suas atitudes sofrem influências de inúmeros instintos herdados ao longo do caminho evolutivo. O que se mostra demasiado curioso é o fervor com que a monogamia é comumente defendida, assim como a tentativa de denegrir a imagem de alguém que não aceita tal idéia infundada. Os monógamos deveriam ser menos radicais, e admitirem a grande fragilidade de sua posição e argumentação.

 

É de opinião unânime que durante o período de duração da paixão, a tendência dos enamorados seja a observância da monogamia. A paixão, por definição, é exclusivista e excludente.  No entanto, é bastante comum que, ao término desse período de intensas emoções, os parceiros venham a sentir, cada um a sua maneira, atração por outras pessoas. Tal tendência é mais acentuada entre os homens (há razões históricas e biológicas para isso), mas também ocorre com as mulheres. Some-se a isso, o fato de que a intensidade do desejo sexual tende a diminuir com o término da paixão e o prolongamento da relação, como explica o psiquiatra americano James Leckman, da Universidade Yale, um dos principais estudiosos das raízes biológicas do amor. “Ao dotar o ser humano da capacidade de se apaixonar, a mãe natureza só queria forçar dois corpos a se aproximar o suficiente para procriar”, diz ele. E conclui que a duração média da paixão equivale ao tempo exigido para a concepção, gestação e o nascimento do bebê, ou seja, no máximo quatro anos. Napoleão, o Imperador, chegava a afirmar que o caminho mais curto para a gradativa indiferença sexual seja exatamente a monogamia continuada. Regina Lins, embora menos radical, compartilha de uma opinião não muito diferente. Ela enfatiza que o desejo sexual está ligado à magia, encantamento e descobertas, e que isso só acontece no início de uma relação estável, pois depois que a rotina entre em cena, o tesão desaparece.

 

Negar o eventual desejo ou atração por outras pessoas, além do parceiro, é certamente uma mentira. “Reprimir os verdadeiros desejos não significa eliminá-los. Quando a fidelidade se traduz por concessão que se faz ao outro, o preço se torna muito alto e pode inviabilizar a relação”, lembra Regina Lins. Em casos mais extremos, tal comportamento pode ser traduzido como uma auto-reprovação de uma atitude pré-estabelecida como errada. Nesse aspecto, os monógamos podem ser divididos em dois grupos: os que dizem sentir atração por outra pessoa além do próprio parceiro, mas que, na prática, reprimem esse desejo; e aqueles que dizem não sentir nenhum desejo enquanto estão dentro de uma relação. Neste último caso – não contando o fator paixão, claro – é comum encontrar pessoas que, com ou sem parceiros, não apresentem muito interesse por uma relação que envolva o erótico ou o sensual, ou então talvez sejam mais inertes e indiferentes aos acontecimentos e atitudes.

 

Ao que tudo indica, o termo “traição” é utilizado pelo monógamo de forma equivocada. Além de sua indisfarçada conotação moralista, ele propõe gratuitamente o sentimento de culpa, certamente para se tornar intocável e inabalável. O mais coerente seria considerar a traição o ato de negar o próprio desejo – que, como já se viu, não possui necessariamente efeitos colaterais perniciosos. “Fidelidade não tem nada a ver com sexualidade. Fiel significa ser verdadeiro e leal no sentimento com o outro”, diz Regina Lins. Mazzini alerta para o fato de que mesmo pessoas que se mantém monogâmicas por


Atualizado em ( 31-Mar-2008 )
 
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